segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Silvio Piresh





Fausta Comédia!

Não foi bem a alma
que ela vendeu ao Diabo.




A mãe de Fausta, grávida de sete meses, deixa o país para ser mais uma exilada na Alemanha. Na viagem, frágil e desesperada, faz um trato com Mefistófeles para garantir o futuro da filha. Por infausta coincidência, este é o ano que Fausta completa 18 anos, volta ao país e começa a não envelhecer mais. No aeroporto, Mefistófeles é o próprio Cristo de braços abertos para receber Fausta. Ou, melhor, pobre-diabo: ele cai em tentação por Fausta, que não quer saber de Mefistófeles. Ela ainda acredita no amor antes de virar moeda e alma de troca. Mas ele não desiste: a cada dia o criador faz uma nova tentativa para seduzir sua fausta criatura.











Água benta na veia, lisérgica.
Moviola de imagens:
futuro diálogo imaginário.


MEFISTÓFELES:

­­- Fausta: possuir é ser possuído.
Nietzsche, sempre Nietzsche.
E antes dele, Bento Espinosa
Também possuído, pela ideia.
Possuir casa é não ter asa
Crisálida sempre, larva.
Ter poder é não poder nada.
Falsa moeda, nada vale.
Ter dinheiro é o que falta ter.
E se tem, não é mais-valia.
Ter beleza não tem segredo:
Atrai insetos, luz fria apenas.
E amar é não ter amor-próprio.
Por que mais que coração
A alma possuída? Por mim, sim.
Mefistófeles, o próprio Diabo.

FAUSTA:

- Meu caro: diabo ou pobre-diabo?
Ter almas é ser possuído
Também por elas, e que inferno.
Como então vai ser, filosofia
Da miséria ou miséria da filosofia?
Por que não um simples negócio?
Como é ter Deus sem ter Deus
Se pesa como chave no bolso
Até para você, Mefistófeles
Mais: o homem come do diabo
Ou, vice-versa, o diabo do homem?
Outra certeza: Deus, essa porca
A comer suas melhores crias.

MEFISTÓFELES:

- Cara: a beleza de fora, um rio
Que de dentro vem. E tudo alaga.
Quem é bela, só isso não quer
Por dentro. E que país, esse.
Que sem ser visto, sentido.
Que, rio de dentro, de sangue
Procura o mar que não é.
Mais: mar não é fim, mas foz.
Antes lago, de paralíticas águas
Paradas, como são tuas águas
De mulher. Entre as pernas.
E a distância, entre nós.
Eliot: ir fundo, apenas ir
Fundo poço, o desvão humano.

FAUSTA:

- Sempre o delta das águas
A conduzir outra eletricidade.
Mulher melhor represa.
Se, por um lado, elucida
Por outro é seio, eclipsa:
Ecce homo às escuras.
Que diabo, Mefistófeles
Um diamante por lábios
Como sexo-gema sem corte.
Outros: os mil diamantes
Do diamante. Em face da luz.

MEFISTÓFELES:

- Fausta: mona-lisa de sorriso
Indecifrável, teu sexo.
Alma sem corpo da alma?
Nem pra que, nem pra onde.
Corpo sem alma ainda corpo:
Sua, arde, fede. E é teso.
Alma não vale essa água:
Nem o rio de ouro, urina.
Ou outra água se encontra
Onde se desencontram
Tuas pernas em forquilha.
Lambe alambique língua
Onde tudo se destila:
Dia após dia e uisge beatha.

FAUSTA:

- Muda o tempo, não o diabo.
Outra é a alma, Mefistófeles.
Não as pernas abertas em V
Para outros estilingues
De pernas e brancas aves.
Que migram, disparam dentro.
Não, nada além da alma.
Parte podre apenas
Ações na Cia de Deus Ltd.
Julgo já jovem julgada:
Como o Diabo gosta, corpo.

MEFISTÓFELES:

- Cara: como Cristo me fixo
No crucifixo do teu rosto.
Cada mão em cada olho.
Corpo torto, mas equilibrado.
Se piso no lábio superior
No inferior, labirinto:
Perco, no beijo, meus lábios.
Eis a rosa de água-viva
Teu sexo, rosa multifoliada.
Onde a alma desvaloriza, cai
Ainda porque investe Deus
Nesse mercado-negro.

FAUSTA:

- Lábios deitados, amarrotados
São ímãs para outros lábios:
Nem se alisam e esticam
Se amor é de outro volume.
Longe o sorriso vertical,
Já fechado o horizontal:
Virtude da rosa que é.
Por isso, mais a procura
Mais alma que valoriza
E alguém que paga caro.
Assim, se o sexo é ideia fixa
Por que não fixar o preço?

MEFISTÓFELES:

- Igual carro: ainda completo
Mas encostado. Sem pior uso
Na área baldia do porvir.
Entre ferro-velho e tudo
Que se recicla da memória.
Entre faróis, lanternas, cabos
Eixos, chassis, molas, rodas.
Entre fiats, fords, renaults
Também o primeiro chevrolet.
Entre cães, latas, tempo
E alguma coisa que pega fogo.
Em parte, hoje como me sinto
Resistindo ao tempo, esse
Que enferruja o próprio tempo
Nas partes líquidas e tesas.
Ah, a arte que toca ao próprio:
Nesse desmanche da fé,
Sempre um diabo mais atual
E ainda à busca do que falta:
Peça barata que faça andar
Sua ideologia e história
E boa parte da vida: a poesia.

FAUSTA:

- Ninguém quer ninguém
Por inteiro. Essa, a pior parte.
Se há o desmanche da fé
Em mim, outro desmando:
O primeiro quer a foto, a boca
E já o beijo blitzkrieg.
Outro, as pequenas peças
Do sorriso. Pra que rosário?
Um quer o sexo no papel
O desconhecido, 15 minutos.
Muitos, só o par de pernas.
Que se abram em sonhos
No compasso das horas.
Outros, apenas o pálido rosto
Para a via láctea do sexo.
Aqueles, a aranha das mãos
Para vestir a segunda pele
Sabe Deus (sic) de que corpo.
Quantos não me escalpam
Guardam meus olhos em olhos
Que nada refletem de mim.
Parêntesis de mãos fecham
Outros parêntesis das nádegas.
O último dispensa o beijo
Mas exige o rabo e a pose.
Para ter, sei lá, o alfabeto braile
De moscas às minhas sardas.
Uns o corpo, outros a alma
Mas ninguém me deseja
Por inteiro. Nem ela, Mefistófeles:
Meu sol doce sal Margarida.

MEFISTÓFELES:

- Cara: entre o dia e a noite,
Mais noites. Coração pulsa vagina
Como sol negro por dentro.
Nada por inteiro nesse corpo
E tudo na cabeça dividido:
Ideias e Tordesilhas da memória.
Apenas os seios à mostra
E pequenas sesmarias de pele.
Nada por inteiro e tudo
O engenho de açúcar, de dentro.
No vale de pernas, esperas
E espermas. E a dor de não ser.
O dorso, latifúndio de mãos,
Vorazes como meninos.
E o que é muito significativo:
Em vez de vagina, nádegas.
Hereditárias. Como capitanias
E fetos ainda não desejados.
Mas essa é uma outra história
Envolta por dentro do tempo
Como a fruta entre lábios.
Do jeito de uma romã qualquer
Que, pelo cheiro, parece apodrecer
Cada dia mais, entre luas
De bolor, entre outras romãs.
Como uma mulher apodrece,
Entre homens, a cada noite.

FAUSTA:

- O carimbo do beijo, rápido,
Estampando marcas de batom
Na outra face. Da tarde.
Apaguei a noite para acender
A luz da madre madrugada:
Meu corpo não cabe no corpo.
Não que o spaguetti dobre
Tripa sobre tripa na gaveta
E o vinho tinto estufe veias
Nas mãos, entre outras mãos.
Não: teu corpo não cabe mais
No meu corpo, expulso agora
Da gruta. E mito de Platão.
Mais ao centro, outro carimbo.
Imprimindo a noite veloz
Toda cor que há no branco.



Tempo. Três meses antes.
Hoje. Fausta e Margarida,
Interior de avião. Noite.


FAUSTA:

- Também aqui o dia amanhece.
E ainda assim não é outro dia:
Sem pão não há fomes iguais.
Uma diferente da outra,
Mesmo a fome da lembrança.
Na realidade não há rima.
Ou há: apenas os pés de cana
Nos versos de Cabral. Ou um
E outro engenho de poesia.
O dia por aqui mal começa
E tudo já vai por terra: o sonho,
A lágrima, a roça. Vida?
Depois, o dia ia tarde na tarde
Querendo já ser amanhã.
Com enxadas e facões e mapas
Em relevo da raça às costas.
E pés na terra, retirantes.
Como dizer tudo sobre nada:
Em vez da terra, sonho dividido.
Como pão para a boca oca
Que nem abre mais o lábio
E mastiga palavras: só o Verbo
Capinar um Deus, sem Deus.
Sem terra, sem nada: o pão
Apenas ruminando, entre dentes,
A branca lua. Como hóstia.

MARGARIDA:

- Mulher sem lastro, some.
Barco em naufrágio lento
Afunda mais e mais a pique
Deixa livre a linha do horizonte
Da sua proa. E carranca.
Amor morto, ainda quente
Espera apodrecer no corpo,
Não na memória de quem ama.
É preciso dizer tudo aqui.
Todo homem é igual: encalha
Nas águas de uma mulher
Com um falso carregamento
De vertigens e espermas.
Não há navio ou homem
Que não afunde, onde pensa
Que é porto: mulher, eu, você.
Feita de águas e esperas
E ainda pode parir o amanhã.

FAUSTA:

- Gretchen: embebida, a tarde
Nas tuas águas, fráguas.
Como escafandro, o amor
Sempre submerso e anfíbio.
Porque água rosicler.
Porque fui. Sem ser, era.

MARGARIDA:

- Entre coisa e outra não há,
Por assim dizer, clara distinção,
Limites precisos, cercas
Mas tensas linhas imaginárias,
Entre razão e coração, países.

FAUSTA:

- Eu já disse isso antes:
Os porcos, só eles, abocanham
Silêncios de prazer e gordura.
Coração, um país. E que cu.
Primeiro, joguei minha vida
Nas ruas: poesia aos porcos,
Versos livres trancados
Na ordem mais absoluta:
Celas exíguas, metrificadas.
Depois, a vida no trabalho
Em troca da mais-valia:
Para não perder o emprego,
Perdi a piada. E me absorvi
Em faustas contradições.
Agora, tenho que me jogar
Na tua vida para ter a minha
De volta. E que ilusão porca:
Em vez de fetos e maçãs
Come sonhos como lavagens.

Avião. Fausta e Margarida
em silêncio. Alguns
pensamentos a bordo.


- Para a mãe de Fausta, fim
Da viagem. Para ela, início.
Voltaria para os dois Brasis:
Um da realidade, outro do pai
Ainda que ambos, país e pai,
Fausta nem de longe conhecia.
Um porque ela ainda no país
De dentro: barriga da mãe.
Outro, porque seu pai preso
Cordão umbilical das esquerdas.
E por isso um dia enforcado
Como um Herzog na cela.

- Do pai nem foto & memória:
Apenas o nome. E palavras,
Que à meia-noite rimavam
Como grades nas folhas soltas
Do livro escrito na prisão
E que os amigos editaram.
Dele nada mais que Lorca
Eliot, Neruda, Pessoa, Poe
E Goethe, Goethe, Goethe.
E, será, de tanto ouvir esse nome
Que sua mãe escolheu o seu?

- Será? Da sua mãe, evasivas.
Outro mistério: ela sempre jovem
Se a vida não é sempre viva?
Que fé, fado ou fenômeno
A sua teia das células tecia
Pra ela parar de envelhecer?
O que fez sua beleza, no auge,
Há 10 anos, parar no tempo?
O que isso lá quer dizer?
Ninguém ainda explica nada
E nunca os especialistas.


Fausta sempre jovem. Sempre
com 18 anos. Descobriria o
quê no Brasil?

- Pele sempre macia, cabelos
Com força, brilho. E compridos.
(Não importa se ela tão rente
Os cortasse: no outro dia já
Teriam crescido de novo e sempre)
Esse fato revelou outro:
Tudo voltava a ser o que era
No dia que completara 18 anos.
O corte da mão não deixava
Marca, olheiras se desfaziam,
As rugas sumiam. Apenas
A memória, esse vinho
Que sorria velhas cicatrizes.


Fausta e Margarida, aeroporto,
saguão. E amigo redentor.

FAUSTA:

- Hoje, de volta ao país, Galeão.
E um só amigo. Espantalho:
Braços abertos, parados no hall,
Crucificando aquele instante
E o meu receio mais ateu.
(Ao amigo da mãe, as malas)
Toda não voltei, parte de mim
Ainda sem visto, non grata.
Mas o abraço, espremendo
Do magro corpo, tirou gotas:
Que do país refinaram o sal.

- Alemanha/Brasil: aqui.
O muro que me dividia, caiu
A parte sonhadora, finalmente
É capitalista. E a utópica
Busca agora profissão.
A guerrilheira virou mito
E espera por Dom Sebastião.
E, sem embargo, o beijo
Do Papa na terra não-santa:
Aqui, nessa madre boceta
De porra seca como hóstia.

- A fonte da juventude agora
Sim com dois olhos d’água.
Hamburgo/Rio/São Paulo.
Fausta mostra o passaporte
E um ou outro pensamento
Se extravia com as malas.
(Que será que sua mãe queria
Para não procurar o amigo?)
Por que então se purgar mais?
Entrar logo no Brasil, inferno.
E ainda sem a mão de Virgílio.

MARGARIDA:

-Meu lado oriental hoje come
Sem já ter fome social.
Usa calcinha Lycra Valisère
Mas leva no cu. Usa perfume
Mas outra oficina de cheiros:
A moral fede. Em cada quarto
Ou sala do Rio e São Paulo.
Meu lado ocidental, por outro
Lado, é qualquer aranha
Nessa arquitetura da noite.
Que emaranha sexos, insetos
E asas de Hegel a Marx.
Tecendo, em cada canto,
Uma outra história. Ou teia.

FAUSTA:

- Caixa de Pandora entre pernas:
Lábios que envolvem lábios
Que envolvem outros, menores
E certas paixões, maiores.
A moral, esse cão de guarda
Mais rosna que morde
À porta da rosa de Pandora.
A revelação: Deus não é Deus
É Diabo. Ou vice-versa: Diabo
É Deus. Os dois, sim, o Um.
Teoria? Estratégia simbólica
De mercado. Ele, a outra marca.
Que, por sinal, muda até
De nome, logo e slogan
Em cada segmento de fé.
Oh God, gótico Goethe
Deus sempre vai ser quem
Apenas pensou fazer o bem
E para isso exercia o mal.
E o tal Diabo, por natureza,
Para gerar o próprio mal
O bem precisava praticar.
(Mefistófeles, ah, esse o nome.
O que mais esse sujeito sabe
Do seu pai, da mãe e da vida?)

MARGARIDA:

- Agora que nada a dizer,
Mais a dizer. Simples, assim:
O silêncio silencia. Entre lábios
Outra parábola cruzada:
Se Deus é Diabo, o Diabo
Também não existe fora
Mas dentro, mina de cada um.
Isso: o Diabo em pessoa,
Física ou jurídica. Ou pior:
Diabo em moratória moral
Com todas as suas ações.
Migrando como ave, essa
Branca ave para o óvulo.

FAUSTA:

- Tudo. Tudo já foi dito antes
Às vezes, melhor que aqui.
(Grata, Mefistófeles: eu e ela,
Agora de taxi, até outra vez).
O sol, sexo: tudo gravita
Ao redor, inclusive girassóis
De seios, exércitos deles.
Que apontam para páginas
Viradas e notas de rodapé.
A história que pega fogo
Nos lixões da memória:
O livro de Marighela, a carta
Cheirando a sexo vencido,
O primeiro poema (sugado
Igual leite) do mamilo.
Umbigo guardado do filho
E a ideologia que também
De quase nada servia, seca.

MARGARIDA:

- A gente não era feliz. E sabia.
Quantas teorias: florestans,
Iannis, durkheims, webers,
Marxs, luckas, althusseres...
A vida como página virada
Ou o que sobrou como fome,
Em sacos de lixo do Carrefour.
Alguma coisa apenas reciclada
Em poucos versos, pardos.
Que, por sua vez, também
Um dia reciclados, puros
Em rolos de papel higiênico.

FAUSTA:

- Como vampiro ressuscitou
Ao terceiro dia: Alter Cristo
Foi Deus ou Drácula na veia
Que deixou a raiva da espécie
Contaminando o sangue?
E mais que sangue de Cristo
A fé, por mais dois mil anos?
Quem, então, nos transformou
Também em tristes vampiros?

MARGARIDA:

- Não foi ópio, heroína, haxixe.
Mas Karl Marx, Trotsky, Ho
Mao, Che e tantos pós culturais
Enrolados em páginas pardas
De clandestinos clãs. Bicho
Da seda nas sinapses, ou teias
Em inúteis cantos do cérebro.
Com disfunção no ventrículo
Esquerdo: aí, sim, músculo.
Como toda a droga, ioga.
Sempre a procura, nunca a ponte.
Tão simplesmente o sonho
Menos o que é mais simples.


Cartazes ao vento. Aeroporto.
Exterior. Noite.

OS ESTUDANTES:

- O corpo como pão: a posse.
Mas a fome é outra nas dobras
De côdea íntima. Insatisfeita,
Entre dentes, como peixeira.
E justa: se em todas as bocas
Ao menos o pão amanhecido
Nesse prato, há pouco dividido
Por um moleque. E seu cão.

OS SEM-TERRA:

- Se o Diabo está ao nosso lado
Quem é quem além da cerca?
Por que a fome ainda come
De corpo deitado, pele e osso.
E se alimenta da infância
Que tem essa e outra fome:
De viver? E por tão pouco, Deus?
Fica assim: uma última vela
Como benefício da dúvida.
Para Deus ou para o Demo,
Para quem vier primeiro.


O taxi de Fausta para.
O porta-malas vomita excesso
de bagagem na calçada.

- Av. Oswald de Andrade:
Um cão ladrou à porta barbuda
Em mangas de camisa.
Fausta abre a porta: riso frio
Vertical, há anos guardado.
Um ou outro quadro espreita.
O chão estende outubros caídos:
Cartas, contas e extravios.
Malas, como mulas cansadas,
São a geometria no meio da sala.
Enciclopédia como soldados
Britânicos, imóveis na estante,
Mostram força a Marx e Joyce.
Os outros, dispersos, assistem.

- No labirinto de paredes
O coração do coração.
Já estivera ali, na barriga
Da mãe, em cada palavra,
Cama, agora deitada em pó
E pelos cupins da memória
(Ou tão o que é memória
Como uma mancha no lençol).
Na janela, heras se agarram
À luz e às formas, Fausta
À mãe: heresia hereditária
De também não acreditar
Em Deus e no amor, outro deus.

- No outro dia, Fausta limpou
Cantos e pensamentos,
Guardou calcinhas, meias.
Crucificou camisas, vestidos,
Espanou porta-retratos
E a memória que não era sua.
Estava instalada. Amanhã
Ou depois procuraria emprego.
Afinal, era assim: dinheiro
Dura tanto como as paixões.
E se o caso fosse Margarida
Esse havia terminado, ontem.


Fausta e seus muros.
Deste lado, sua outra história.


- A unificação das cores,
As manhas e Alemanhas,
Deu no Disco de Newton
Todas as impurezas do branco.
Fausta e seu outro muro
Ainda erguido, grafitado
De fé, fome, urina e tapuia,
Escondia talvez uma história
Anterior à sua, sítio de folhas
Ou palavras, vomitadas
Como uma confissão.

- Muros como novos tratados
De Tordesilhas entre elites.
Muro, deste outro lado
País que longe é coração
Nem séria também a alma.
Hoje, escavações de algum
Cemitério clandestino.
Um sambaqui de unhas,
Ossos e ideias e sonhos
Que viram leite e capim,
Entre algas e praias militares.


Banheiro e banheira. Fausta
se depila. Dia.


- Corpo de Fausta: vírgulas
Milhares, minúsculas, loiras,
No texto das pernas, mãos
E a leitura breve em braile.
No parágrafo de hieróglifo
Era decifrar o delta, podar.
Gilete, pernas em pirâmide
Caminho suave na branca
Espuma do creme. Tarde
Ainda a noite de autógrafos
Com suas canetas de pele
E tinta branca da insônia.


Armário aberto. Fausta vê a gilete.
Uma ou duas ideias que cortam.


- Tudo muda: a gente deixa
De vir primeiro num segundo.
Os pulsos levam sangue à mão,
Que quer cortar os pulsos.
O duro motor de tanto bater
Quer parar. E pulsa ainda
Mais sangue ao pulso.
A cabeça virou músculo
E a massa cinzenta, nuvem
É raio, lâmina, impulso.
O lado que pensa vira de lado
Sem dialética nenhuma. O coração,
Ele de novo, cabeça de Hidra.
Tirano, quer mais sangue.


Por que a gilete? Palavras
de despedida é que cortam.


- Fausta: De novo a metáfora
Máxima: quando juntas,
Já separadas. Duas Alemanhas.
- Margarida: O corpo branco
É que suja o meu, negro.
Ou mesmo o contrário.
Não há tesão que resista
Nem filosofia que supere
A essência íntima, ou o cheiro
Das águas de outro corpo.
Um corpo negro: mesmo
Odiado, sinto, na cama
Quando alguém de prepúcio
E raiva, me esporra láctea
A branca verdade na cara.
Um corpo estranho, grão
Que precisa ser apartado
Ou, sei lá, anulado em pérola.
Então o que é que cheira mal
O branco dia ou esta pele?
A ideologia ou meu rabo?
- Fausta: O muro da cor
Também nos apartava, juntando.
Agora, aqui, nos dois Brasis
É que a luz se decanta
E a gente então se separa?

- Margarida: Mulher o que é.
Homem o que é, dela.
Gosta de sol e insetos:
Tem a pele fria. E às vezes
Vive por aí incompleta.
Sem a cauda, cortada.
- Fausta: Contudo, ela se refaz.
Homem que fica para trás.
- Margarida: Ele dá equilíbrio
À mulher, é a sua cauda.
- Fausta: Sem ela, ela vive.
Mulher torna a crescer.
- Margarida: A cauda, idem.
- Fausta: Essa a sobrevida.
A lagarta sem homem
Eu sem você, Margarida.
- Margarida: Torcer palavras
Ou contorcer caudas?
Na partida, a dor repartida.
E a minha, muita, adiante.
Olhar você, olhos de sal.
- Fausta: Cortada, há sangue.
Vai, o taxi mais que espera.
Aí as malas, essas as mãos.
Se é por falta de adeus, tchau.



Primeiro dia no país e
Fausta já vê Margarida partir.


MARGARIDA:

- Lágrima: fio de prumo
Toda vez que algo nos empurra
Para a linha do horizonte.
Se o mundo não nos abraça
Sonhos desatam-se de nós,
Fogem, livres pelo ar.
Sem laços, ninguém tem
Presente. É caixa vazia
Em caixa vazia, sem surpresa.

- Tudo porque ela resolveu
Bater portas, pernas e xota.
Bem isso, ir: Margarida ida.
Então, abanar mão e palavra
Que nem tão dita, final.
As pessoas partem quando
Deixam corações partidos.
Ou inertes em si e para si.
É como um vaso chinês
Que, parado, ainda se move.
Eliot ou Heráclito, Fausta.
Nada que equilibre mais
Sei lá, esse vaso no peito.
O tempo, quarto de hospital
Piorar antes, quase certo.


Mefistófeles liga. Marcam encontro
no The Place. Trocam ideias como
carícias. Ainda frias.


FAUSTA:

- Sol da meia-noite: os homens
Migram, procuram o calor
Nas dobras fêmeas. Cidade
Na rota de dentro, veludo,
Vertigem e vaso de flores brancas.
O cérebro meio olfato de cão,
Os lábios-carimbos, as peles
Tatuadas, o tal porvir não.
Arquitetura da lua: fundações
Desse simples projeto viver.
De olhos sobre bocas, o edifício.
Sem carícia, músculos minúsculos.

MEFISTÓFELES:

- Hipodérmica, a rara droga
É injetada em meio à rosa
De lábios. O sexo vicia
Sevícia: nem mais o mesmo
Punhos de recém-nascidos
Forçam outro diâmetro.
Por instantes acalma, narcótico.
Depois, o amor vira roma:
Inverso perverso, down.
Por ele o homem trai, pilha,
Mata, mente, morre até.
E, acreditando em qual Diabo,
Já nesse Deus põe cornos.
O mesmo e o outro: só ser.
A não ser animal resolvido
Ou homem mal acabado.


FAUSTA:

- Terços, ábacos, fio e pessoas.
Estranho medir de dias.
País paisagem à paisana:
O Brasil ouvia Nelson Ned
E pensava da mesma forma.
Se a pena e alma pequena
Gulliver apenas o amanhã,
País de dentro e fora acordasse
Partindo todos os fios.
De marionete à mão, aranha.
Tecendo, não a pedra e o dia,
Mas o nó e a ideologia.

MEFISTÓFELES:

- Ariadne solta fios e amarras,
Destece o porto. A linha
À frente é já outro horizonte.
Parte enfim e deixa esses dias
À porta de teus labirintos
Tão cerzidos como lábios
E cicatrizes. Como sorrisos
De pele repuxada, lisa.
Você é a própria aranha
E hóspede da teia. E do barco,
Também a outra tripulação.

FAUSTA:

- O amor, arma branca.
Corta o que já está seccionado
Avivando a vida e a ferida.
E fere, quase mata, mas não
Que termina. De cruel,
Vai matando lentamente.
Homem é essa faca no corte
Do sexo. E sempre Narciso
Nesse sujo espelho de água:
Às avessas. Todos, todos iguais
Na democracia de cheiros
E sempre no paralítico ar.
Antígona: os mortos por terra
Enquanto os vivos apenas,
Entre pernas se enterram
E ressuscitam, vampiros
Para a Ridícula Comédia.

MEFISTÓFELES:

- Mulher, princípio e ainda fim
Do homem. Inclusive
De Deus e Diabo, gêmeos.

FAUSTA:

- Um ventre, água em febre,
Sexo que ri (feio) hipnotiza
Cirurgião que faz o corte,
Sorriso de Mona-Lisa.
Mas dessa vez os guris
Não estavam lá. Foram
Brincar de pega nas ideias,
Pular cercas, traçar linhas
Imaginárias, meridianos
Entre céu e inferno e tudo.
De marionetes, o homem é
Que, afinal, caiu nos fios.

MEFISTÓFELES:

- O mito então virou realidade
Ou: o homem, de criador
Virou, por fim, criatura.
Outra genealogia, Fausta?

FAUSTA:

- Dessa vez não, os guris não
Estavam lá. Porque Deus e Diabo
Acho, são fetos do homem.

MEFISTÓFELES:

- Então, Deus e Diabo também
Filhos do próprio filho.

FAUSTA:

- O medo de amar: medo
De vomitar. Ácida comparação,
Caro amigo. Mas, às vezes,
Para eliminar ânsia e dor
Precisa provocar um e outro.

MEFISTÓFELES:

- Turgeniev fala do homem feliz.
Feliz não por herança, Fausta,
Ou promoção no trabalho
Ou que fosse a encontro
Amoroso. Feliz, sim, por ter
Ardilosamente inventado
Boato sobre um conhecido.
Feliz porque, dias mais tarde,
Ouviu esse mesmo boato
Dos lábios de outro sujeito,
Passando, assim, a acreditar
Ele próprio na história (infeliz)
Que antes havia inventado.

FAUSTA:

- Homem feliz que inventou
Deus e Diabo há milênios
E recebeu de volta o dito mito
Bumerangue ou, então, parábola.
Deus e Diabo, sim. Tão longe
De um, tão perto do outro.


Dia seguinte. Mefistófeles
e Fausta no Supremo.
Garçom serve a mesa. 22:00 h.


MEFISTÓFELES:

- Enquanto o Papa arrota hóstias,
Parábolas & Ave-Marias
E cardeais soltam peidos
Incensando insensatas salas,
Meninas de 10 anos sangram
Nos hirtos paus de sujeitos
(Que não faltam à missa).
Meninos dão o cu por moedas
Para haver, dia após rua,
Esse outro milagre do pão.
E mães, pobres e pretos
Engolem o amor-próprio,
Já a única refeição do dia.
Não há outro terço: a Igreja
Cristã é suja. Nos textos
E no que produz como fé.
Sua única luz: mistério
Em meandros de desmando
E outras catacumbas de poder.
Enfim, nazista à sua maneira,
Fascista à sua semelhança.

FAUSTA:

- Crucificado, o tal Vampiro
Ainda exerce seu poder:
Difuso nos terreiros, absoluto
Onde há fome. Marcas da culpa
No pescoço da alma. E pacto
De sangue, onde não há mais
Sangue: veias de silêncio.
A máxima: amém, não. Amem.

MEFISTÓFELES:

- Pelos olhos, luz e contrabando:
A miséria do país de fora
Para o país de dentro. Não há
Esta ou aquela distância
Que faça mudar o foco. Filtram
Tudo os olhos, menos a lágrima.
De Cristo ou de crocodilo.
Pelos olhos, romarias e filas:
Centopéias de mulheres,
Velhos e desempregados.

FAUSTA:

- Tudo é ira na íris: faca
De médium abrindo olhos.
Não do que se viu, porém
Do agora que vai se ver.
Pelos olhos, ponto de fuga
Do horizonte. Sem haver
Contudo, qualquer horizonte.

MEFISTÓFELES:

- O Führer da fé sem fúria,
Jogo de poder mais lento
Porém com mais eficácia.
A rota do pó ao pó: ida vida.
Crucificada na seringa
Hipodérmica, a fé. Esta, aquela
Droga pesada, ainda mais
Se atua com ácido gástrico
Nesses estômagos vazios.
Engalanados de batinas, urubus
Ou padres: mais traficantes
Da fé que pensamentos,
Mulas de exemplos e bíblias.
Embora quase sempre serenos
Como santos tantos e poetas.
E, Deus, por que é assim:
Homens que nunca amaram
Podem falar de amor e fetos?


Fausta quer acender
um Marlboro. Seu isqueiro,
de lado, diz não.

FAUSTA:

- Museu de cera, a memória.
Tudo está lá, estático, único,
Esperando olhos em rima
Como parangolés no trigo,
Nossos espantalhos de braços
Abertos, que nos espantam
Por ainda nos atraírem, ímãs.
O norte ao norte, memória
Bússola de cada um. E não
É volta porque é partida.

Mefistófeles estala seus dedos à
frente do cigarro. E a mágica
falha: rosa para Fausta, que sorri.


MEFISTÓFELES:

- Teu corpo, sexo, ob e pavio:
As palavras sempre minas
Sem o salvo conduto do gesto
Para atravessar o país, corpo.
O capitalismo emocional
E essa troca, nunca realizada,
Mercado de olhares e livros.
Teu corpo mais adivinhado
Que revolução ou utopia.
Não é pavio, culpa ou chama.
É memória fria. E gatilho.

FAUSTA:

- Entre casas, vidas capistranas.
Estreitando relações, idas.
Entre pessoas, entre outras
Distâncias mais geminadas.
Que estreitam sempre o porvir
Tatuando de bolor, laranjas
E negras peles. E o quê mais?
Se vive apenas (sem pensar),
O ser é capaz de ser feliz.
Se pensar, nem pensar:
A não-felicidade, em si para si.
Por nada e nunca satisfeito,
Sempre desejando mais.
Por mais que possua mais.

-Essa força que faz continuar
A mesma que nos faz parar.
Se no deserto, sob o sol,
A energia é o açoite para ir
Adiante, porém a cada golpe
A mesma energia é o freio.
Não é assim, caro Hölderlin?
Se deserto, sob o sol negro
De dentro, a gente também
Avança no que é sombra
Por outro lado, ele mesmo,
A cada passo, condena a ficar.

MEFISTÓFELES:

- Em cada mulher, cada sexo,
Uma teoria do conhecimento.
Uma nova genealogia, envolta
Seda: crisálida, metamorfose.
E essa dupla personalidade
Do homem, que para voar
Antes rasteja, literal lagarta.
Lábios como asas, viagem:
O que é anfíbio voa vil.
Vertigem: hidra e híbrida
No sexo-clepsidra, marcando
Um novo tempo por dentro
Do tempo, gota a gota. Ah,
Unhas tatuando, no peito,
Sagrado coração, ñ de Jesus.


Outra mesas, outros diálogos.


FLEURY:

- Pupilas dilatadas: punhal árabe
Na fenda das nádegas, gesto
Que desvenda outro crime.
E vai descobrir um outro país
Adiante, por trás do corpo.

DETETIVE NIGRO:

Igual maçã ao meio, cortada
Que sai da cama para outros
Lençóis brancos e duchas:
A vida se transforma memória.
Como um cigarro aceso
Desenhando em fumaça
Outra dimensão, outros ares
Que já não se dissipam.
Ou, então, esse bife de tira
Cada vez menor no prato
Porém cada vez maior, inteiro,
Na porcelana da memória.
Feito esse corpo, invertido,
Carta de baralho no espelho
Do teto, vida que lembra.

FLEURY:

Se a vida tem fome e pressa,
A memória inflacionária:
Transforma o que é realidade
Em cédula falsa. Ou seda.

MEFISTÓFELES:

- Maçãs, amores, como guardar?
Se tudo perece e a memória.
Se nada é ou fica, cor e carne.
Se o homem morde a fruta,

FAUSTA:

- Olho por olho & rima: retinas
Qual mariposa em soluços:
Louca caligrafia dos sexos
Então, a memória: pó da asa
Que já embebe a lágrima.

Fim de noite. Fausta
Conversa de novo com seu
Isqueiro. Sem deixar de ouvir
A mesa em frente.


ESCRITOR 1:

- Nem boa nem má, a palavra.
Palavra é lavra de palavra.
Em si e para si, crisálida.
E logo outra palavra: asa.

ESCRITOR 2:

Na porta e fundo da noite,
Corpo negro sem belorizonte
Mas dois olhos em Minas.
Que sonham dia-mantes
E tampouco lapidam o dia.

ESCRITOR 1:

- Esclarecedoras, as estrelas
Na mão de Deus, esse.
Que lapida sonhos e pedras
Deixando a memória do corte.

ESTUDANTES:

- Brasil: general vem e urina
E uma estrela cai na latrina.


Sexta feira. Fausta e Mefistófeles
Municipal. Escadarias. Noite.


MEFISTÓFELES:

- Santa Ceia de prostitutas,
A Menina Jesus já pronta
Para sempre ser crucificada
Em cada corpo de homem.
Rosa foliada em cada cama,
Cravo de carne, rosário
De nomes que a noite fia.
Tantas hóstias disformes,
Via Láctea amarga, quente,
No inferno dessa boca
E céu de Dante: Beatriz.


FAUSTA:

- Antes da mulher, depois
Da mulher: o calendário
De cada um, cristão ou não.
Antes, pré-história: homem.
Que ainda nem é homem.
Depois, o fim da história:
Homem mil mitos mortos.
Então, já o que importa
De verdade é durante:
Dois mil anos de mulher
E de história do homem.
Cruz pesada, porque vazia
E não se move sem mulher.


Estudantes nas escadarias
do teatro. Coro.


ESTUDANTES:

Brasil: general vem e urina
E uma estrela cai na latrina.


Fausta e Mefistófeles
no teatro ao lado de cartaz
de Carmen. Interior.


MEFISTÓFELES:

- Todas as mulheres a mesma
Mulher. Homem, sonda:
Sexo que procurando água
Logo fica mais trêmulo
Diante da rara perspectiva
De rios e veios escondidos.
Mulher: quem encontra uma,
Descobre a fonte, mãos
E vasos comunicantes:
Fazem o homem se sentir
Único, sendo igual a todos.
Homem busca esse búzio
E apenas prazer possível.
Agora, a mulher: o Moby Dick
Dos homens. E o esguicho
Nas suas águas-vivas.

“L´amour est un oiseau rebelle
Que nui ne peut apprivoiser"


FAUSTA:

- Homem não é rio, mesmo
Com muitos afluentes.
Não é rio, não deságua fácil
E nem corre para o mar.
Homem também não corre
Simplesmente atrás do ouro
Se ele é a própria mina.
Longe de correr para a pena,
Escrever rios de páginas,
Se não é para canalizar
Outro rio de brancas tintas.
Não, não é rio, mas corre
Entre as duas margens.
Não é rio: cavalo de águas
Que não olha para os lados,
Estreitando horizontes.
Não é rio, mas sabe guardar
O que não deixa fluir: detritos,
Suas palavras em garrafas.
Por esse lado, também não:
Não é rio porque não é doce
Mas salgado em suas águas.

Et c´est bien en vain qu´on l´appelle,
S´il lui convient de refuser...”

MEFISTÓFELES:

- Por outro lado, homem é rio
E pode arrastar tudo, turvo.
É rio também na sua forma
De dar voltas: indireto ao ponto.
É rio porque escorregadio
Nas suas pedras. E no limbo
De todas as suas relações.
Não há outro rio: um homem
Corre, sim, para a mulher.

“Rien n´y fait, menace ou prière,
L´un parle bien, l´autre se tait”



Saída do teatro. Estudantes
ainda nas escadarias. Coro.


- Brasil: general vem e urina
E uma estrela cai na latrina.


Sábado. Ponte aérea, balsa
e Ilha de Búzios.


FAUSTA:

- A balsa parece levar estrelas
Da ilha para o continente.
Meu olhar vai que carrega
As estrelas do teu olhar, azul.
Para esse porto inseguro
Do que você chama amor.
O primeiro, segundo Fausto.
Uno rápido, pontos de luz
E não vejo mais que teu signo
Na órbita do Cão Maior.
Meu olhar encalha no teu,
Para mais tarde, tardemais,
Teu sexo ancorar no meu.


Hotel das Rocas. Café da manhã.
E olhos que namoram.


MEFISTÓFELES:

- O sol se põe nos teus olhos
E vou ficando às escuras.
Lá pelas vinte e duas horas
Usei estrelas como andaimes
Para estar nos olhos, contido.
De madrugada, pude ver ainda
Meus olhos nos teus olhos
E logo teu corpo fora do meu.
Falei: outra a dor do parto
Porque a gente nascia junto,
Qualquer tolice do gênero.

FAUSTA:

- A teia da vida no canto
Da vida. Invisível para quem
A tece, final para quem
Se entristece. Se aí sonhos,
Apenas sonhos de consumo
Próprio. Que já não tecem
Outros sonhos, da dilúcida
Matéria da realidade, ou asa.
Pior aranha de mim: ataca
Onde o eu é mais inseto.
Ciência ou sinuca de canto:
Inércia é pior que a queda.


Semana seguinte: Mefistófeles
procura Fausta, mas tudo já é
diferente. Ela é outra Fausta.


MEFISTÓFELES:

- Minha boca: lábios deitados
Nos teus lábios de pé, a rosa.
Que não é rosa que não é.
Outra rosa, de pétalas e lábios.
Por que, então, eu me fecho
Em mim na cega convicção
De acreditar tanto e mais
No que sempre dura tão pouco?

FAUSTA:

- Da primeira vez, disparou
Alarmes e roubou um beijo.
Da segunda vez, nem isso:
Abriu o corte sem licença
E lá deixou brancos vestígios.
Da outra vez, a mesma coisa.
E de novo no dia seguinte.
E de novo, de novo, de novo.
Até matar em mim o que mata
Também em série: o amor-próprio.

MEFISTÓFELES:

- Cabeça, boca e gatilho?
Deixa o coração falar, amanhã.

VOZ EM OFF:

- Mulher começa pela vertigem,
Olhos em rima: o precipício
E o pulo de quem está à frente.
Cílios acentuam a queda
E a paisagem. Boca almofada
De carmim, carimbo de beijos
Rápidos como guardanapos.
No riso argentino, senha:
Rosa, faca, adaga de carne.
Seios sobre a Guanabara
E também braços abertos.
Cada perna, meio coração
Ao fim de cada nádega.
O homem é a segunda pele,
Superficial, da mulher.
Por baixo outra, envolve
Tecidos, músculos, veias
E todas as águas represadas
Para a epilética eletricidade.
Dos pés, dedos retirantes
Do corpo da alma, terra teia.
Mãos, sempre parênteses,
Homens dentro: somados,
Multiplicados, divididos,
Mal equacionados. Nas costas
A pele tatuada por outra paixão
De viés, que nunca não sai.


Porta do apto. Exterior.
Dia. Mefistófeles aperta a
campaínha. E a sua?


- Razão não é mulher astuta.
É mais infiel, profissional.
Se, por um lado, ela trai
Por outro seduz, com outro.
Ter razão é ter, poder, deter,
Ou ter simplesmente razão.
Sempre com quem não deve
Ainda que com a gente.


Meia hora depois: lago
do Ibirapuera. Mefistófeles faz
a proposta para Fausta.


MEFISTÓFELES:

- Ao mesmo tempo, ímpar
E par, paixão que ganha corpo
A cada dia, que me afasta
Mais da aparência. E em você,
Fausta, procura a essência.
E eu & você, já pensou? Pensa.
Porque tudo o que pensar
Pode se transformar ouro.
Não a toque de Midas ou Pedra
Mas a Pensamento Filosofal.
Simplesmente poder, absoluto
Que decifra tudo: fórmulas,
Sistemas, máximas, metáforas.
Que trans forma e fundo
Destila cores, obras, telas.
Transmida ideias plúmbeas
E doura a água da vida.
Porque reforma o próprio ser
Inova células, veias, sangue
E fica sendo a promessa
Mais próxima do sempre verde.
Quer mais? Todos os vestidos,
Perfumes, viagens, carros.
Dos palácios, o mais fausto
Dos sexos, sempre o mais hirto
Dos homens, o mais servil.
Tudo isso e mais até aqui,
Se no Além, Fausta me seguir,
Servir. E no ir e vir, mulher
De Mefistófeles todo o sempre.
Pensa bem, Fausta: não há par
Assim em nenhum quarto.
Que melhor comunhão de bens?
E mais a mais, se Fausta
Também significa felicidade
Por que não deixar tudo isso
No seu nome? Essa é a hora.


Fausta anda ao lado de
Mefistófeles. Sabe ouvir, mas
é como toda mulher no início:
ainda procura o amor.


FAUSTA:

- Agradeço, caro Mefistófeles
Mas a Moeda Filosofal
Não é para mim, não agora
Nem aqui, não, nem pensar.
Promessas douradas não podem
Despertar um sonho de teor.
Esse o verdadeiro sangue
Nas veias, que entra e sai
Desse labirinto do coração.
O prêmio de juventude, sim
Ad eternum também sedutor
Mas outro ouro de tolo: ser
Apenas jovem, sempre Fausta.
Demais bônus materiais
Também não podem comprar
Quem nunca se vendeu,
Ainda que na própria pele
Um dia possa dar ideia.
Até se faltar o pão um dia
Antes vender o corpo à alma:
Ser mulher sem ser feliz.
Mais: não quero a meus pés
Nem ninguém neste mundo.
Liberdade tem duas pontas:
Ser primeiro pobre-diabo
Para ser Senhor na outra.


Mefisto para ao lado do lago.
Ele fala e fica. Ela fala e vai.


MEFISTÓFELES:

- Respeito seu desejo, Fausta.
Mas quero antes respeitar o meu.
Se não posso ter, dia após dia,
A mulher assim mais defausta
Posso então, de hora ou outra,
Aparecer como simples amigo?

FAUSTA:

- Se dia após dia apenas amigo
Sem artes nem manhas, ok.
Afinal, bem e mal nunca mesmo
De todo separados, não é?


Enquanto isso longe dali:
Margarida infeliz. Num ou noutro
canto da casa. Até quando?


- Casamento, essa empresa
De mordidas. Margarida
Até feliz por algum tempo,
Mas logo na própria teia
Em cada canto da casa.
Só, em cada vão e desvão.
Mulher sem ser mulher:
Sem ter filhos, estéril.
Do pó, viva, voltou ao pó
Caleidoscópio de vertigens
Minueto de vampiros e anjos
Como baratas, os sonhos.
Pulsos sem pulso, cortados.
Os dias, dentro das horas.
E sempre uma nova tentativa
De fuga por essa veia aberta.

- O tempo dentro do tempo,
Outro tempo. Que diferença faz
A mesma história sendo outra
História. E sempre o excesso
De contradições e drogas.
Decadência é, às vezes, saúde
Único bem de Margarida,
Então reagindo à química,
À fórmula simples da vida
E ao que ela antevia ser
Primeiro ato de Mefistófeles,
Mal e bem necessários.


Ninguém bate palmas
ou aperta a campainha. Mas
Margarida atende.


- O destino chora à porta.
Numa cesta, um recém-nascido
E duas linhas na carta: Margarida,
Meu filho agora seu filho.
- Não deu a lógica: Margarida
Nem quis procurar a lei
E correr o risco de perder
Esse anjo de cara e caracóis.
Não, nenhum juiz cortaria
O cordão umbilical, seda
Que ligaria duas pessoas.
- Margarida não era, todas são
São todas mães, sem ser.


Um mês depois: bebê
no colo. Fraldas do dia.


- O tempo aprende a andar.
O próprio corpo, alma
Gordos seios qual baiana
Ou mesmo porta-bandeiras:
As mamas, miméticas
Preparam leite e biografias.
A vida mais faz de conta:
Margarida crescia mulher
Crescendo com a criança.
Calmaria, porém, aparente.
Vida: fraldas ao vento.


Margarida, delegacia de polícia,
acusação, prisão. Noite.


- O velho jingle da ditadura,
Duas viaturas de polícia.
A história: o fim da história:
O bebê fora sequestrado
E ela a principal suspeita.
Havia testemunha, falsa,
Também a carta, mas qual?
A ciência da inocência?
A vida sempre movediça:
Mais ela se mexia, mais
Fundo e mais engolfada.
O exame mostrou: a carta
Era da própria Margarida
Com a outra mão escrita.

- Tarde ou cedo, a vida
Fede como fralda, usada.
Versa o poeta: o desespero,
Agora cristal frio. E assim
Tudo Margarida perdia
A vida e o sentido da vida,
A própria auto-estima.
Nem mais, nem menos:
A vida é a pior medida.
Que perder é tão pior
Quanto não conseguir ter.
Até mais: morde o sono
A consciência, sem pedigree.


Viatura salpicada de luz.
Margarida na cela.
E suas fugas diárias.


- O camarim de Margarida
Cela de três por dois e meio.
À meia luz, mortiços, os dois
E ambos sem luz própria.
Rosas não, espelhos não havia,
Apenas a lágrima estréia
Entre novas contradições.
Alguém infrigiu sua vida
E nada como estar preso
Para não ter mais saudade
De si mesmo. Até o encontro
Do corpo e o que não era corpo.
Dos sonhos que o possuíram
E de tudo que antes fugia dele.

- E agora quase nada é tudo
Tentativa de fuga: a memória.
Sol, praia e simples brisa.
Um cheiro de grama cortada,
Um perfume, folha seca
Caindo, uma mão. E o beijo.

- O que vai ser: o que foi?
Que a função da memória
É mesmo essa: libertação.
Ou por instantes, breves,
De liberdade condicional.
Persona: sair do seu corpo
E ocupar outro corpo, livre.
Sair da cela não como ela
Mas com outro passaporte:
Ser Fausta, sem ser Fausta.
Para voltar a ser Margarida.

- Memória, sempre remorso.
Tanto se as coisas deram
Certo ou se não. Tanto mais
O passado é equação exata
E o homem mal resolvido.
Nada, porém, se mistura e tudo
É continente e contido.
Ainda mais agora Margarida
Que o passado libertou
Para deixar agora presa.


Dia de visitas. A crise.
A vida, camisa de força.


- Outro código de barras:
Fausta hoje vê Margarida
Na Penitenciária do Estado.
Mas Margarida vê Fausta
Então, com outros olhos.
Como já se comentou:
Vendo Fausta pensa que
Se vê, consciência em si
E para si, face e faca
Da filosofia: personalidade
Reflexiva e gatilho: convulsões
Epiléticas. Epílogo: sedada
Vai para a ala psiquiátrica.
E aqui mais não se sabe.


Outro lado da cidade e da
história. Mefistófeles saboreia
vinho do Porto. E seu ato vil.


- Entrar no Infinito: seguir
O Finito por todos os lados.
Não é isso, Goethe? Assim
Dividir para logo possuir,
Ter Fausta sem Margarida.
Mais frágil. Tão mais fraca
Porque pensa mais humana.
E cada vez menos altiva
Ah, na sua hirta rigidez.

- Grades separam Fausta
De Margarida, mas juntariam
Fausta e Mefistófeles?
O jogo: não importa o fim
Se o princípio prevalece.
O mal do mal: fazer o bem.
Porque parece provado
Que o homem se fortalece,
Se sobrevive ao ponto zero.


Cela de Margrida. Crepúsculo.
De mulher, inclusive.


- O dia contido como laranja
Entre outras laranjas, agora
Margarida. Sol que se estraga
Por dentro pelo bolor de fora.
A solidão outro sol, frio.
Entre elas não mais o toque
Nem a maçã ao meio mais
Ou entre lençóis a febre terçã.
Fausta ainda não sabia:
O porvir apodrecia, tangerina.


Outro dia. Living, sofá,
mão no sexo: Fausta adormece.


- Fausta dormiu e acordou
Para dentro. E o mesmo sonho:
Mãos como raízes, nua,
No muro de musgo e pedras.
E do seu sexo sobressaía
Outro feto: samambaia
Que pendia folhas como rimas
Entre as coxas como ímãs
De olhos, de menino que urina,
Em círculos mal feitos, seus pés.


Outro sonho. Fausta agora
tem os olhos da mãe. E a visão
das celas onde foi torturada
aqui no Brasil.


- Outra vez dormiu e acordou
Para dentro. E agora novo sonho.
Imóvel, em sala de cirurgia
Algo acontecendo à sua volta.
Ou: à volta do seu sexo
Outra rosa branca, de médicos.
Podia sentir agulhas entrando,
Unindo lábios, nessa rosa.
Suas pernas abertas, em M
Como num parto, a luz.
Intuía, quem sabe, uma cicatriz
Desenhada a linha, preta
Onde antes quase sorriso.

- Sim, isso da primeira vez.
Depois, médicos como elétrons.
Só aí então e já revelado:
Entre as pernas, sobrancelhas
Ainda sobre o lençol, viu
Fausta com os olhos de cima
Que, outro olho então se abria,
Entre outras pálpebras, lábios
Da vagina: também azul.
Olho e hipnose de najas, íntimo,
Como um raio-x, vendo alma
Dos homens e seus interiores.

- E viu os olhos frios de Deus
Das celas à noite, fixos.
E outros olhos nesses olhos:
Contidos, vazados: marcas
Que cigarro acendia na pele.
Viu, ouvindo gritos vermelhos
Dentro da noite sem dia.
E mulheres de máscaras
De leite de pênis civis,
Ou nada civis: duros, militares
E outras mulheres tratadas
Em outros cremes, piores.
E céu da boca esporrado
De nuvens brancas, ácidas.
E viu homens como porcos
Nas próprias fezes, sendo
Eles mesmos as pérolas.

- E viu palavras arrancadas
Como unhas à meia-noite.
E anzóis como anjos em clitóris
(Como interrogações em aço
Para arrancar dor apenas ).
E um nome escapando entre
Dentes extraídos, delatado.
E baratas e seringas e drogas
E sangue e bile e bosta.
Viu fios elétricos na uretra,
O corpo que toma corpo
E o que não é corpo: auto-estima.
E cabelos e seios urinados
Na história que cheira mal.
E todos eles, pais de família
Com filho, cachorro, sonhos
E mais que apenas cumprindo
Seu dever: ainda gostando.

- E aranhas tramando a seda
Dos atos institucionais.
E homens buscando cantos
E Deus caindo na própria
Teia do olho do homem.
Viu fios unindo mamilos
Como um Pão de Açúcar.
E, do outro lado da noite, presos
Em queda livre ao mar
Inflando o volume das águas.
E mais helicópteros que iam
E voltavam como moscas
Para os seus lábios, já frios.

- É preciso ver tudo: olho e
Corpo, campo de concentração
Sendo ele o holocausto.
O coração batia nos pulsos
Amarrados, expulsava algum
Sangue em corte recente.
Na testa de um ou outro cristo
Coroa de arame farpado
Para não precisar ressuscitar.
Porque ninguém morria, mesmo
Morrendo, nessa História.


Manhã do outro dia: banheiro.
Fausta tira a calcinha e examina
o local, minuciosa.


- Deus pensa em ferir antes
De curar. Se, por vezes, cura
É para logo e de novo cortar.
Por isso: a dor tem memória
Da dor. E a alegria é uma
Gia pulsando azul no ar.
Como conhecer a mulher
Senão no limite-dinamite?
Que Deus ateu sou eu.
Que não acredita em mim?
Mulher que não crê mais
Em papas, santas e antas.
E que cala essa orquestra
De padre-nossos e peidos.


Sem Margarida e quase sem
dinheiro: instante ateu.
Ela pensa em se prostituir.


- Não Fausta, ninguém quer.
Talvez alguém amanhã. Todos:
Vendem a alma ao Diabo
À primeira dor de barriga
Ao último sonho. Também ela
Por um tempo resistiu.
Depois isso que acontece:
Fausta, como todos, só vende
O que ela não compraria.
Primeiro, o corpo. Logo, a alma
Do corpo, entre rendas,
Meias e preservativos.
Por amor à vida, prostituta.
Por amor, não. Ter homem
A cada dia, a cada dúvida:
Vai sentir ou, sei lá, intuir
Que todos eles são iguais,
Mesmo sendo diferentes.
Ser Fausta: amar algo em todos
Ainda sem amar nenhum.


Fausta no espelho.
Por que não envelhece?
Por que só o coração?


- Há anos que sua clara pele
Não tinha outro amanhã.
Só sua memória envelhecia
Sépios dias após outros.
Mas que adianta ser eterna
Se sempre, sim, sem par?
A poção, coincidência de foz
E fonte, que se encontra
Onde se encontram as pernas.
Não outras, essas, ternas:
De sonhos e águas paralíticas.
É preciso ser sem ser Fausta.
É bem Marguerite Duras:
É só enquanto se vive
Que a vida é imortal. Não?


Sofá. Fausta lê um livro
e folheia o sexo.


- Murilo Mendes: Os sábios
sonham que estão mudando
Deus de lugar. Os sábios.
- Fausta: E estão? O Diabo ocupa
Então a vaga deixada.
- Murilo: Padres, podres. Padres.
- Fausta: Ratos de igreja e fé
Como uma peste bubônica.
- Murilo: O tabuleiro do abismo.
- Fausta: Lógica e outros ratos,
Ratoeira que muda de lugar.


Agora vê uma foto da mãe.
E volta a dúvida.


- Mãe de Fausta, outra diva.
Tão bela que Maria Calas
E timbre de Andrea Guiot.
Tanta alma, porém, tão pouco
Para sair da cela e tortura.
Se Deus não ouvia, que voz
Saía dentre as grades?
O Diabo até o contrário,
Com seu canto de sereia.
(Tanto que a mãe de Fausta
Teve dois habeas-corpus:
Um da prisão para a rua
Outro para ver Mefistófeles
Cuspir o branco sangue.
Aos vagidos, Fausta depois).
Mas essa uma outra história
Que ela ainda não sabe.


Noite. Fausta pensa salvar
sua alma. Com o corpo.


- Quando se perde tudo,
Em tudo ou nada se acredita.
Que diferentes, as pessoas.
É só por isso que umas
Ficam fortes outras frágeis.
Fausta sabe: nada a perder
Também significa que
Ainda se pode perder mais.
Mais: esse oportunismo
De Mefistófeles era agora
Mais que inoportuno.


Mefistófeles, não. Ela venderia o
Corpo para não vender a alma.


- Tudo ter e um pouco mais.
Mas tudo não era tudo
Se uma mulher não ama,
Tudo é nada. Isso é tudo.
Fausta tentação, porém bela
E talvez e por isso pedra:
Firme, recusou Mefistófeles.
Margarida ainda no Olimpo
E nas suas partes altas.
Um só homem não poderia
Nunca mais ser exclusivo
No corpo e casa de dentro.
Muitos homens, a estriga
Para a sua beleza e linho.

- Fausta queria ser amada
Se não por uma mulher
Agora por todos os homens.
Rara, de faces faiscantes
E como diamante, a vida:
Dura também. E corta.


Anjo Azul. Interior. Noite.
As doze prostitutas
se apresentam a Fausta.


ANTÍGONA:

- Sou Antígona, Fausta. Meu pai
Também meu irmão. Por amar
Não consigo enterrar os mortos:
Que tragédia grega agrega
A minha, bem brasileira.
A diferença: sem noivo e par,
Ninguém morre por mim.
Tampouco garota de programa,
Porque hoje nem tão garota.
Certos homens, porém, gostam
De carne dura e lágrima seca
Na vida real é que sou atriz
Ou, quem sabe, mais atriz aqui.

HIDRA:

- Porque Hidra? Mulher, bicho
De nove cabeças. Nenhum homem
Decifra sem nove corações.
Sou mais ou menos assim:
Mais racional, dia a dialética
Fiz Letras e Ciências Sociais
E agora aqui, bela da noite.
Sim, simplesmente aconteceu.
Quando não há mercado
O corpo é a moeda podre
E a flor, simples mais-valia.
Sem pudor: nem só dinheiro,
Sexo é química, reação banal
Olhos nos olhos, que nada
Homem não se guarda, fugaz
Sempre em nenhum espelho.
Só a Hidra do sexo interessa.
Mas é mito: mulher alguma
Se regenera. Que pele, Fausta?
E uma só cabeça, à noite
Extermina todas as minhas.

EURÍDICE:

- E eu estou aqui, porque lá fora,
Orfeu, sem lira, mas ira.
Aquela história: veio me tirar
Deste lugar, mas voltei, ave.
Hoje não sei quem morre
Pela segunda vez, mil vezes.
A vocação: toda mulher tem
O clitóris de Eurídice.
Sexo: ponto forte e fraco.
Mais: qual veneno das víboras
Se ama com mais veneno,
Branco, cuspido, salgado.
Seminua e crua: vil metal
É necessário, mais a flauta
Se toca os grandes lábios.

MEDÉIA:

- Na tragédia, traí pai, matei
Irmão. E os próprios filhos.
A vida imita o mito. Por amor,
Somos outros. O pensamento voa,
O sonho é cerol e o menino,
Impulso. E até tempestade.
Meu nome foi castigo: não
Conhecia a história toda. Mais
Tarde, tarde da noite, tarde demais:
Era já Medéia, em pele e persona
Ou Medéia era já eu mesma.
Se não sabe o que significa, gosta.
Porque aqui, o corpo vem antes
Que o nome. E quem resiste?
Essa é a tragédia, Fausta:
Por amor, matamos até o amor.

MÉROPE:

- De dia, artista, grafiteira.
À noite, outras tintas. Pincéis,
Pentimentos um do outro.
Porém, a vida é que não permite
Antes o lápis e o rascunho.
Não tem ensaio, é outro set.
Os cortes, reais. As edições,
Abruptas. E um só espectador
Que contra/cena muda o script.
Vida qual filme real, erótico:
Põe, secreta, goza na cara.
Ah, Épito o meu Macbeth
Que há muito fugiu de casa.
Aí se a tragédia tem volta
A história é o fim da História
Para o pai que não é pai.

FEDRA:

- Sou a mulher mais mulher
Porque mais perigosa. E vice-versa.
Não tão boa, nem tão fiel,
Bela às vezes, às cegas fria.
O desejo dorme crisálida
E amanhece asa. E faca.
Por tesão tentei Teseu e filho.
Recusada, recusei a vida.
A ida, Fausta, porém não é ida
Se não é para voltar um dia
Para a rima verde dos fetos
Fosse lagarta ou, como um deus,
Que ressuscita mariposa.
Por amor ou Hipólito qualquer
Ser mulher é arrastar asa.

ALCÍONE:

- Mais uma vida, minha vida.
Eis a chave: tomei a decisão
Ou eu que fui tomada por ela?
Com todas as letras e Todos
Os Nomes, do Zé Saramago
Esta é a fase: Ceíce partiu
Soltando amarras, ventos.
A bordo: amor, porto inseguro
Hoje, cada cama caravela
Cada homem um mar de sal.
Só, ninguém é náufrago.

DEJANIRA:

- Uma mulher é o Olimpo
De todo o homem, Fausta.
Onde o próprio é imortal
Entanto, como falta o sal
Saliva e poção, que reage
E que, única, formula a gente.
Já espremendo o homem:
Palavras, palavras, palavras
E algumas gotas amargas
No preservativo. Lábios,
Gomos de laranja, secos.
A droga amor: porra seca.
Corta gilete e não cheira.

HEBE:

- Desculpa Fausta, se pura
E infausta: a mulher, sei lá,
Única Fonte da Juventude.
Todo homem procura, bebe
Esse cântaro, entre pernas,
A outra fonte. Uns quantos
Minutos, uns tantos anos
Que o homem ganha perdendo.
Por outro lado, Ecce Homo
Também bica da nossa fonte.
Sempre foz, cristalfonte.

ARIADNE:

- Fausta: sou meia irmã de Fedra
Manequim nas horas vagas,
Prostituta nas vagabundas.
Aqui, a cama é a passarela
O amor e sexo, a peçonha
A cada dia penso em dizer
Não e não, como na canção.
Porém passa, ferida cerzida
O coração mais fechado,
O sexo ainda mais aberto.
Sonho como metáfora e pano
De fundo, talvez calcinha.

FILOMELA:

- Viver bem a boa vingança:
Pessoa física sempre na piscina
Mais: há sempre um Tereu
Para servir com a carne
Do próprio filho, insossa.
O amor, uma arma branca.
Corta, até mais se sem fio
Porque rasga, sem ser preciso.
Onde se lê: língua cortada
Leia-se: rouxinol. De asa
Quebrada, parábola no ar.

PROCNE:

- Fausta: uma só andorinha
Faz a tragédia mais grega.
Filhos crescem, e maior ainda
É a vingança: do meu ventre
Para o estômago do pai.
Espelho de Narciso, vidro moído
Filho, veneno para ratos.
Tudo cresce e maior ainda
É o crime por trás do crime
Por trás de outro, adiante.


Suíte do Anjo Azul. Fausta
no sofá. Pensamentos estampados
como travesseiros.


- Encontro de água salgada e doce
Teu estuário, píer e nave.
Homens, rios. Tudo corre
Para teu corpo, mulher e mar.
Um falso Monet na parede
E a realidade monetária:
Sêmen na cara de Washington,
Lincoln e de alguns reais.
Entre lábios, a tal adaga
Corsária, nas águas da rainha.

- De um para outro, sempre
Uma viagem. E inevitáveis malas.
Coração fundo falso, meias
E essa pedra de contrabando.
Tão perto, mão como soco
Inglês, de anéis. Como sexo
Em si um país apunhalado
Em splash de leite e sombras.
Ah, então era este o prazer?
Tudo bem, repita-se. Repita-se.
Assim: se não por toda a vida
A vida, portanto, a noite toda.


Mefistófeles também
no sofá. Porém do outro lado
da cidade. Abaixo.

- A grandeza de Fausta: abraçar
Sempre a pior hipótese.
Tentar perder a consciência,
A desgraça das desgraças:
Mito (Lefebvre) ou talvez mato
No terreno baldio da História.
Trocar de pele, vestir sim
Outros homens. Tatuar à noite
O próprio corpo no tempo
E de novo deixar a casca
Como um reles vitral sacro
Já para trás e por terra.

- Não criar nada, destruir
Como a Igreja Católica
Há vinte séculos. Devorar
Gregos, romanos, matar Deus:
Pregar cada homem
Nos próprios braços e cruz.
Vampiro do homem a Igreja.
Imortaliza a morte em vida,
Reza a má consciência.
A palavra fechando outras
Palavras, outras portas.
Sempre a mesma pérola: porca
Igreja e suas crias e hóstias
E parábolas. Falsa, sabe
Da verdade: homem precisa
De ideais como andaimes.


Quarto de Fausta. O primeiro
Cliente e a primeira crise.


- A víbora descasca preservativos,
Trocando de pele, venenosa.
O primeiro cliente, sem dúvida,
Ou talvez, é o que nunca sai
Do quarto e de quadro.
Lava cara e vértice das pernas.
Mas não lava a memória.
Mão e sexo, Excalibur funda
Outro país na sua pedra.
Que doce disfarça a saliva
Em grandes lábios outros lábios
E mais outra arqueologia.
A manhã banhada a ouro
De urina. Línguas de sol
Lambem o quarto de quatro.
A memória-dálmata: manchas
Sobre o corpo dessa alma.
Pele tatuada, agora subfausta
As bocas do corpo, dedos.
Digitais de suor, vestígios
Camisinha e espermicida. “P4D”


Fausta levanta e vai à janela.
E o cliente até ela.


- Lá fora, via láctea esporrada
Talvez por um ou outro deus
E ponto cadente procurando
O óvulo do olho, tão azul.
Aqui, um sexo salpicando
Estrelas nos seus pelos
E clareando o céu da boca.
A noite não cabe nos corpos
Vaza. Na casa das águas,
Outras furtadas, moinhas.
E nada disso que importa:
Por mais que praia e mar
A mulher vive a seca e teia.
Seu coração trinca a terra
Como rede a seus pés. Resiste.


24 horas depois. Quarto
de Fausta. Interior. Drama:
O segundo cliente.


- No coração ainda não há
Outro sangue. Nem lágrima
Que seque a primeira.
Só o corpo tem a memória
Da entrega, volume e febre.
O aríete força o corte,
Entra: a cidade das águas.
Invadida, não é conquistada
Uma mulher. O corpo, porém,
Encontra sim outro prazer,
Porque dá corpo ao que é.
É possível ser mais Fausta
Ou é seguir à frente, defausta
Sem olhar mais para trás.
Deixa, porém, homens de sal
E às formigas, doces dias.
Pernas, entre suas pernas,
No grafite da noite, o porvir.
Por mais que resista
Fausta é tomada à força.
Músculos másculos, veias
Pulsos e dedalus dedos
Na sua garganta, eis o ato
E o rito de passagem: a ponte
Para o outro lado de mulher.


Outro dia no Anjo Azul.
Fausta e o terceiro cliente.


- Na esgrima dos sexos,
Havia lá certa coreografia
E sagração de primavera
Em línguas dodecafônicas.
Sim, por uma única rosa
E duplo sorriso das nádegas.
A adaga de carne abriu
Mais ainda a ferida aberta.
Não era preferível a fome
Ou ainda vender a alma
Do que estar ali, noite
Após noite, interpretando
As bocas teatrais do corpo?
A nau dos olhos em água
Porque é outro mar que se leva
Entre as pernas. E farol
Entre outras espumas, fugaz.
A ironia, então, nesse grave
Instante: a rosa é riso.


Nem João, nem Batista.
Mas noite de batismo. Para
Fausta. E para Helena.


- Em nome do seu nome,
Fausta à noite tem outro nome.
O batismo em nome que não
Se ousa também dizer o nome.
Tem outra água, branca, densa,
Benta. Salpica a face, corrói.
Amor, rito de passagem.
Porque não é ponte: é hiato
Entre uma perna e outra
De uma mulher real a outra,
Para um falso nome de outro.
Mulher à meia-noite é lunar
Mas ainda girassol: gravita
E se curva ao sexo e sol frio.


Fausta, cliente e outras
águas. Suíte. Noite.


- Em nome do pai, filho
E espírito santo: mão e sexo
Persignando testa, boca
E seio, onde o coração
Só faz volume e gravidade.
O sexo ainda manda beijos.
Numa das faces, chora
Mel e branca ferrugem.
E tudo se mistura à lágrima
Que ainda brilha, recente.
Melhor será a morte líquida
Por dentro, nessa espuma
De água, sal e ambrosia
Que essa falsa máscara clara
Cuspida e pegada à cara.
Melhor morrer outra vez,
Que ao terceiro dia não
Conseguir ressuscitar. Ainda.


Mais um cliente. Só a fumaça
do cigarro beija seu corpo.


- Outro lado dessa mulher
E também face da moeda:
O homem, melhor lastro.
Ou apenas algumas gramas
Nesse porão deletério
Ou ser ou sexo carmesim.
Mais que sonhos, porvir
E mesmas carícias mal feitas.
O homem tem esse peso
Para ter outro nível a mulher.
Vomitando girinos brancos
Ou dúvidas, o homem sim
É que é cuspido para dentro.


Agora ela é Helena e puta.
Como tantas no Anjo Azul.


- Helena agora seu nome.
Para os outros, para si mesma.
Ninguém como ela precisava
Ser tão enganada, ser outra.
E nada demais ser a mais
Bela entre as mais gregas.
Seus pensamentos também
Como ilhas, dispersos.
Porque a beleza é uma puta.
Sagrada, a outra mãe das águas
E tempestades compradas.
O bicho das suas sedas.

- Helena para Fausta não era
Grego: há muito sua primeira
Memória de menina. Amigas:
De mãos em sésamos, rendas
E pele. Toque na seda: choque.
Sua eletricidade guardada
Nas primeiras águas fráguas.
A luz dos olhos, central de força
Entre elas assim transmitida.
E o fim porque era apenas início:
Helena saiu então da sua vida,
Sua rua, cidade, até país.
Hoje, ouve Madredeus e canta
Fados ela também em Lisboa.
Fausta seria Helena, Helena
Seria Fausta. O quê mais quando
O amor dos homens é sujo?


Dia e diálogo subjetivo: Helena
seu lado de dentro. E de fora.


- Baudelaire: O amor é o gosto
Da prostituição. O amor.
- Fausta: Que é Deus? Prostituição.
- Baudelaire: Todo o gosto.
Não tarda, porém, a corromper-se
Pelo gosto da propriedade.

- Fausta: Amor> delírio> ópio
- Baudelaire: Terrível jogo: um
Dos jogadores tem de perder.
- Fausta: Se ninguém perde,
Não há amor. Nada.

- Baudelaire: Única virtude do amor:
A certeza de fazer o mal.
- Fausta: Homem e mulher?
- Baudelaire: Eles sabem: no mal
Está toda a volúpia. No mal.
- Fausta: Amor, flor do mal?
- Baudelaire: Achar o frenesi.


Noite e quarto de Fausta. Cliente
fala, ela finge concordar.


- Homem: entre duas forças
Entre sul e norte, entre si.
Se vive, migra para o sul
Se não: o norte da memória.
Seu apogeu e decadência e
O império da lembrança:
Mil anos-luz numa noite.
De ir e vir e correção de foco.
Meu rosto entrando e saindo
Do teu olho, aberto, rabo.


Quarta: soldado sai do quarto
de Fausta. Primeira hora.


- Guerra e paz: tirou a roupa
Sem camuflar o que era,
Uniforme em cada músculo.
Em mim, idem, a mimese
No vértice das pernas, aqui.
O gatilho do corpo, rajada
De pássaros em arco.
Depois, armistício de horas.
Trincheiras de fronhas e gestos
As minas das palavras, inertes.
O quarto, quarteirão ocupado
Pelo suor, fadiga e disciplina.
Luz e soldado: rápida retirada
E eu, livre. O coração, porém,
Por minutos ainda sitiado.

- Pentelho no linho branco,
Algum desenho de Miró
Telando a noite anterior.
A rosa gótica, hoje mais
Gaudí, toda vermelha.
Dos dois, um seio-Botero.
Mordido, unhado, inchado.
A pele cheira a outra pele,
Aspas de dentes na nádega.
Vê as marcas de algemas
Nos pulsos, marcas mais
Fortes na memória. Não?
E o que nem bala de hortelã
Disfarça: esse espermicida,
Gosto mais ácido da noite.


Manhã de outro dia.
O estudante dorme como
mochila nas suas costas.


- Lâmina que tudo e mal separa
O que é pó: o vício e o viço
Do corpo aos dezenove anos.
No mesmo país outros tempos:
Não é ex-estudante, não tem
Ideal, nem ao menos fórmula
De misturar Marx, Hegel, Che,
Branquinha e Coca-Cola.
A ideologia morreu num Fusca,
Metralhada por militares.
As axilas do país cheiravam
Mal em cada operário na rua
E best-seller de Paulo Coelho.
Antes ou depois, além, outro
Tiro a guisa de misericórdia.
Na Bolívia, garotos mortos
De todos os países. E o nosso
Acabou entre as brancas pernas
De alguma Ruth ou puta daqui.
A reação, pela última vez,
Cortara a cauda da lagartixa:
Nem o sonho cresceu mais
Tampouco voltou o equilíbrio.
E se a luta é só por carteirinha
Para pagar meia no cinema?


Sofá. Noite. Fausta lê algumas
páginas e dá o peito ao livro aberto.


O espaço e a ação, eis o ato
E o teatro de Shakespeare.
Ou então drama em cada canto
E o monólogo de cada um.

- A bandeira do Brasil em cada
Olho, azul. Dentes, argentinos.
Aí o retrato falado carece
De exatidão e mais detalhes.

- Carlos: a chuva me irritava
Até que um dia descobri
Que Maria é que chovia.
- Fausta: nuvem ainda cândida
Sujeito, sexo ocasional.
- Carlos: lutar com palavras
É a luta mais vã. Mais vã.
- Fausta: palavras, palavras
Doces ou ferinas se faladas.
Se finais, não mais o toque.
No lugar, outro sol e câncer.
- Carlos: a luta prossegue
Nas ruas do sono. Do sono.


Ela e um certo Prof. Wagner.
Quarto. Meia-luz. Noite.


PROF. WAGNER:

- Chuva: policiais entre grades
De água, no pátio da faculdade
No carro, algum relativismo
Cultural, Marcel Mauss,
Frazier, Claude Levi-Strauss
Uma calça Lee já aberta
Outra monografia de saias
E uma mão ainda virgem
De fuzil pelos dois Brasis.
Mas que disparava, entre
Pernas e ligas, outro gatilho.

- Enquanto Ruth dava aulas,
Fernando Henrique ensaiava
Lá sua resistência francesa
E alguma teoria-dependência.
Florestan, entre gias, vi cortar
Lusos cabelos, rever amigos.
E virar a página desses dias.
Tua mãe? Nunca vi mais linda.

FAUSTA:

- Pelas palavras, disparadas
Como chumbinhos, aos pratos
Em parque de diversões
Não há prêmio, só consolação:
Fui à infância. E lá fiquei.
Pelas gramas brancas, essas
Feito estrelas esporradas
Na noite e céu do meu sexo
Isso também não me falta:
De peso ideal, completa,
Posso voltar. E seguir adiante.

PROF. WAGNER:

- Países pobres, países ricos,
Que puta igualdade tem
E que diferença isso faz?
Fome e satisfação, carência
E abundância, frio e arrepio
O que muda e vai mudar?
Empunhetar armas, embrulhar
Sonhos em certa bandeira
E aí dar corpo à mortalha?
Que adianta ser Lamarca
Se utopia não cheira nem fede
Se outro ideário é merda.
Não sonho mais, nem a pau.
País é esse coração que dói
A cada esquina e artéria de rua.

FAUSTA:

- Amor, droga: a gente sempre
Dependente, terna ou ácida,
Precisando aumentar a dose.
Pior que qualquer química
O melhor amor, sempre.

PROF. WAGNER:

- Mulher pobre, mulher rica
Entre elas, nádega igual:
A merda de uma, melhor
Que a comida da outra. Pode?
Merda e musa, Brasil e Usa
Resta a poesia per capita,
Uma rosa entre os dentes
(Corsária de outras águas)
E uma faca entre os lábios,
Grandes lábios, cheirando
A revolução vencida.

- Urubus desenham círculos
Feito o logotipo da Audi.
O país aqui é um lixão:
Duas montanhas, grandes,
Como o Pão de Açúcar.
E guri de cinco anos no alto,
Que também abre os braços.


À noite: meia-luz. Fausta
coloca o preservativo com a
boca. O cliente, oral.


- Vana verba, cara Fausta:
Os torturadores arrancavam
Do meu corpo, tinta e palavras,
Palavras, palavras, palavras.
Que, de tanto repeti-las,
Iam perdendo o sentido.
Quer saber: assim o prazer,
Que agora arrancas de mim,
Vai perdendo a palavra
A cada descarga de 110 volts
Até na costura e testículos.


Manhã. Ao lado da bicicleta
ergométrica, flexões e reflexões.


- As pedras não são pedras,
Nem a montanha é o ponto.
Ser dia a dia um Sísifo de saias,
Sem saia: carregar quem chega
Pesado como homem ou pedra.
Aparar arestas, subir costas
E encostas, cordilheiras.
Mostrar o seio, ser o Olimpo
Ou, simplesmente, mulher
Top of hill do homem.
O mesmo que se leva, mas
Não nos eleva: de volta nos traz
À base. Para mais um dia
Ter esse duro fardo de levar
Homens e lapidar pedras.


Suíte, interior. A noite ocupa
Fausta, vazia.


- Sol negro nos olhos de Fausta:
Abrir e fechar, corta a fita
Da noite e inaugura mais uma.
Os cílios filtram rostos, roçam
Detalhes de desejos déjà vu.
Algum pensamento que migrou
Do quarto e noite anterior.
Hoje, a carência zero do corpo.
E, ainda assim, a mesma
Edeologia e águas de sempre
Entre as pernas, entre eles.


Jardim da suíte. Noite. A lua
dá volume às águas.


- A noite desenha luas na pele
E tantas outras unhas e estrias.
De pé, de preto, de relance
O rosto claríssimo de Fausta
É a própria lua. Dentro da noite
Lenta, suspensa como fruta.
O homem (ainda de face oculta),
No banco de jardim, gravita
Cabeça e certo olhar para cima:
E a lua de boca minguante
Vem cair, Fausta, no seu colo.


Fausta e cliente na Raposo.
Interior do carro. Noite.


- O Fiat, avariado, bocejava
Na estrada, engolia nacos de noite
E um ou outro vagalume.
O motorista sim atraía insetos.
E o colo de Fausta, olhos
(Já acesos por um Marlboro).
A lua faz sua parte e traça
Seu perfil. Depois, desenha
O sol num dos seios, a fumaça
Do cigarro apaga o outro.
O sexo sonda mudos lábios
E extrai da boca mais prazer.


Fausta manhã. Ela mesma,
Depois de ver a foto da mãe.

- A ordem do corpo: labirinto.
No coração da gente, a gente
Entra, sem bater: sangue que sai
De tinta não mais retinta.
Podem as palavras entrar
No labirinto do ouvido. E sair.
Também o sexo pode se perder
Entre lábios, e não importa
Quantas vezes torna a sair.
Entanto, é no próprio cérebro
Que se entra, dá voltas e deita.
E não sai: é labirinto sem ordem.

- Ela e a sua equação de sexo:
Chaves, parêntesis e ponto.
Vagina que tudo multiplica,
Outro coração, pulsa, dispara
Termômetros, brancas seivas.
Em segundo grau a outra
Equação: o eterno x, mulher
Ao quadrado. Ou dividida.


Fausta no escuro. Sem qualquer
Maquiagem, reza.


- Mão contra mão: louva-deus
Nos dedos brancos de Fausta.
Boca de esmalte engole contas
De um terço, ao meio.
Olhos abertos, no eixo da lua
Ou a lua no lugar dos olhos.
Fechados, procuram na eclipse
A luz, como qualquer inseto.


Fausta e cliente. Rei e rainha na
mesma carta, espelho do teto.


- Corpos ligados, tempo passa
Na tensa clepsidra dos deltas
Das águas: sexos marcando
Um ao outro, gota a gota.
Tempo esgotado, nada. Nunca.
A clepsidra dos corpos agora
Se inverte. E tudo recomeça.
Na parede outro tempo: tece
E, às vezes, fere em agulhas.


Fausta crucifica a tarde.
O Redentor mais acima, a cidade.


- De Guanabara nos braços
Fausta rodopia gaia no ar.
Porém, nenhum Ulisses à vista
(Margarida também não)
Para as suas águas e sal.
A placenta do dia vai então
Para o laranja: ninguém vai
Chegar com as estrelas.


Noite. Fausta, cliente, Dom
Quixote e maus lençóis.


- Norte ou Sul apenas na rosa
Que não é rosa dos ventos.
Agulha desorientada, em febre,
No que magnetiza: rosa
Das águas. Moinho de dentro
Transforma palavras em sílabas
Grão-amor em coisa miúda.
Moinho de fora: a própria Fausta
De braços e pernas abertas
Sobre o sujeito. Moinha noite
E o amor que não se move.


Outro cliente, outro pobre-diabo.
Chove lá fora.

- Delta do êxodo, Península
Do Sinai, entre as pernas:
Geografia do seu corpo.
Para quem do Bom Retiro
Veio ver tua rosa, hoje estrela
De Davi. Mas ele não fica,
Outra é a Terra Prometida.
Dia de Pessah até para você
Fausta, que não passa além.
O mar vermelho faz parte
Das tuas águas. No vértice,
Vórtice das pernas, juntas.


Fausta só no seu quarto
e limbo. Noite interior.


- Sargaços na pele, homens
Não ficam por dentro.
O corpo é purgatório, mas corpo.
No bico do seio mora Deus,
Essa montanha e mais um dia
O Paraíso. Inferno, a próxima
Estadia. Cândida e cálida
Rosa na ante-sala: sua língua
Indefinida em Bem ou Mal
Na primeira oval, bivalve
O nome do lábio sem nome.
Dante ou Durante: os sensuais
Gulosos, pródigos, coléricos,
Ímpios, violentos, etc. e etc.
Na oitava: os aduladores,
Adivinhos, fraudulentos
Hipócritas, ladrões, falsários
E na última: os traidores.
Certeza de Inferno não existe
No inferno. Certo é o corpo.


23:00h. Ela é tocada igual
toda mulher: homens iguais.

- Coração, clitóris e gatilho
Ou código Morse na ponta
Da unha e dedo, pai-de-todos.
Raios: o corpo atingido.
O olho do furacão, cílios
Falsos tal qual pálpebras
Num abrir e fechar da rosa.
Delta sobre delta, a calcinha
Cultiva o olhar, sesmaria.
Amor? O que ficou à mão.


Fim de noite: Filomela, Fausta
e vodca. Diálogo possível.


- Filomela: longa noite para quem
Não é prostituta por amor.
- Fausta: noite de longos punhais.
- Filomela: sério, a vida corta. Porém
A cicatriz feita ri. No ventre.
- Fausta: cicatriz sobre cicatriz,
Riso sobre riso, vertical.
- Filomela: a vida, então, é esta?


O baton de Hebe suja sua
memória: Margarida.


- Lábios como carimbos
Remetem Fausta para o quarto.
Meio extraviada, lê cartas
E pensamentos. Projeta-se.
Entre um ponto e outro, reta
E talvez aí maior distância.
Ou para ser mais correto:
Ela mais e mais se distancia
Do seu ponto de partida.
Longe a ética, ideais e sonhos
E ainda mais longas as noites.
Agora, outras ideias hóspedes
E mais inquilinos na pele.

- Os cupins deitavam a cama
E até a memória da cama.
Uma mão rasga a foto, sépia,
Feminina. A outra, mecânica:
Vai e volta, arco de Cupido
O sexo manda beijos, a boca
Nas sobras da noite, cíclica.
Rosa movediça então poço.
Memória, casa tombada:
Pernas-Isadoras ensaiam ali
Um ou outro movimento.


Fausta no quarto de
Medéia. Mulher que nunca
se entrega. Nem a ela.


- O quarto de Medéia: teias
Como hipotenusas nos cantos.
Uma profissional: sem som
Sem sim, estímulos nenhuns.
Se o cliente então não agrada
Era o próprio Estado: o mais frio
Dos monstros frios, Nietzsche?
Os olhos-alvos nunca alvos
Atirados já em outra direção.
Melhor, as mãos eram os olhos
Nesse alfabeto surdo-mudo.
7:00 se os deuses não morrem
Na cama, Medéia ibidem.


Outra noite: Fausta, Hidra
e cliente. Interior de carro.


- Estrada a fio passando
Por motéis, como terço.
A palavra fria, o gesto frio
E frio o mês: junho julho.
O beijo raro, sonegado.
Que, afinal, os lábios de toda
Prostituta são os grandes.
Ou retro prazer se fechando
Qual máquina fotográfica.
Assim, o tempo se aproxima
E vai ficando mais longo.


Fausta, Hidra e cliente.
Interior de motel.


- O que não é ação e reação?
Eterno movimento, pêndulo
De Newton: corpo que vai
E volta e vai, passageiro.
Mas é mais que isso. É teoria
Do conhecimento, sempre.
Ela explica sem explicar,
E atrás de si, deixa vestígios:
Dinheiro e sêmen e bosta,
O cérebro no lugar do coração.
Sentir é pensar. Do contrário, não.


Sol já na soleira: o dia
se refaz. Fausta ainda não.


- Palavras que, como frutas,
Apodrecem à mesa, dentro e fora
Do vime. De carne fria, lógicas.
Uma guarda sóis do meio-dia
Como laranja ao meio. Outra,
Maçã dentada, meio de mulher.
Sobre a pia cacho de dentes
De bananas mordendo a vida,
Que apodrece o próprio dente.

- Despiu a maçã em espiral,
Na febre lenta das mãos.
A faca cortava luas de carne,
Esculpia a semente, palavra
Feito vagina, guardada
Em segredo: eterno recomeçar.
Mas, para Fausta, não bastava
Comer a fruta, também
A semente da maçã. A palavra
Silenciou, dentada. No pênis
A outra fruta comemorava.


Dia claro. Fausta abre a
bolsa, tira e troca de vestido.
A sua alma, de pele.


- O sexo deixa sua casca.
Veneno branco, voraz e vivo.
A morte se enruga cor-de-rosa
Em pele, lábios e sotolábios.
Sombra sobre ombros pesa
Sobre sombra de outro corpo.
A noite, mímica química,
Cheira forte nos corpos.
A parede tatuada por umidade
Solta suas cascas ao chão.
O capitalismo, sua lepra
No criado-mudo: notas de R$ 50.
Entre meias de nylon, outra pele
(Dilúcida víbora subjetiva)
Que qualquer mulher, inclusive
Ela, Fausta, deixaria por lá.

- Mais que forma das formas,
A alma é o fundo da forma.
Ela preenche qualquer vazio
Cheia de tranquilidade
Se o fundo se transforma.
Sem ela, o homem é doente
De si mesmo. E com ela?
Bom selvagem de um lado,
Má consciência de outro.


Fausta tira sutiã, calcinha,
entra na banheira. E lê sobre
Helena, outra Helena.


- Cena subjetiva: Fausta lê
VamPires: “Helena enlève
La blouse comme quelqu´un
Qui s´arrache la peau
Elle ne devrait pas être là-bas.
Pas avez ce type-là.
Mais à la vie ce n´est pas
Tout qu´on peut résoudre
Avec des éclats de rire.
Plus tôt oú plus tard,
Il faudrait se coucher.
Et ouvrir les autres bouches
Du corps. Maintenant, c´était
À oublier l´amour à soi et aller
Jusqu´au bout. Mais:
Faire semblant d´aimer!”

- Fausta vira a página:
“Helena, alors, se tourne
Vers l´instant: des pensées
Comme des galaxies de gyrins.
Tard de la nuit, déjà
Á la chrysalide du sommeil,
Elle sentait qu´elle devenait
Personage hermaphrodite.
De son públis bourgeonnait,
Incarnat, énorme pénis
Que poussait de plus en plus
Où se bifurquaient les jambes.”


Mão acaricia o seio. Esquerdo.
Livro cai, engravida na água.


- Outra página de VamPires:
“Non-sens: ça fait longtemps
Qu´a cause de l´office,
Il dévoile des crimes
Et il ne recherche ni même
Ce que se passe avec lui.
Au milieu de la place Gal Jardim,
Murilo trouve qu´il est le
Propre traficant de sentiments.
Quelqu´un a déjà dit
Ça à propos des poètes.
Julia, bien sûr! Oui, la vie
Lui flagrait. Mais ne lui a jamais
Surpri avec la moindre
Quantité de cette drogue
Que nous fait continuer.”


Banheira, sais aromáticos.
O corpo dissemina a dor
que o corpo quer.


- Deus sempre ao Diabo atado,
Tratado de linha imaginária,
Onde Fausta, em duas, se dividia.
Ilhas: meios seios emergentes
Dos sais e jacuzzi e motel.
Outro sexo: água na água.
E tudo isso nem era amor. Não era.
Apenas a química na superfície
Da água. E de cada um.


Mulher: lâmina. Cada ferida
aberta uma boceta na carne.


- Seu corpo: cálida crisálida
Onde se transformam lagartas.
Não em asas e falsos anjos
Ou, talvez, nádegas-asas.
Acreditar mais em que?
Deus se move filho e culpa,
Entre travesseiros e lençóis,
E saliva e água benta e branca
De jovem corpo crucificado
Em outro corpo, masculino.
Toda mulher morre à noite
E, necessariamente, não
Ressuscita. Até para si mesma.
Pereat veritas, fiat vita.


Fausta abriu os olhos.
E a luz do dia foi apagando
os desenhos da noite.


- Política ruim, vinho bom
Nas aspas e senhas da História.
Tanto pior sua cultura,
Melhor para a outra cultura.
Noite criada adormeceu vinhos
E acordou tinta no papel.
Deus e Demo-cracia: intensa
Luz virgem a princípio.
Apagando nas mentes e/ou
Galerias/escavações, afrescos
Dos seus sítios e outros eus.


Quarto de Fausta. Noite.
Deus é uma ideia vampira.


- Metáfora da metáfora:
Deus não criou o homem,
O homem que criou Deus.
Melhor: sua pior criação,
O não-estado de sua graça
Não sentia: ressentia.
Deus era sua ideia doente
Onde ele tudo sempre podia.
O bem para além do mal
A vida para além da vida
Aquele que não descasca,
Culpa que não se morde.
Criado em meio ao medo
O pensamento então se vira
Contra o pensador, vírus
Infectando outras ideias.


Quarto de Fausta. Deste ou
do outro lado da pele.


- A pele separa um do outro.
O lado interior do exterior,
O bem do bem e do mal,
O mar mesmo dos seus rios,
Tão internos como veias.
O tempo de estio do tempo
Das águas, cheias de dentro.
Até o calor do sol da lua
Da sua solidão crescente
Como sorriso ao contrário.

- Pele separa corpo do corpo
De outro corpo e alma.
Superfície da superfície
Que nada: nada artificial.
Fausta é a pele de Valéry:
Nada na mulher é mais
Profundo que a sua pele.
Que separa porque casca,
Preservativo que se usa
Para entrar no mundo.
Ou, então, ele nos invadir.

- Deus é a falta do Diabo,
Diabo é a falta de Deus.
Um não existe sem o outro
Porque também às vezes
Um pode existir no outro.
E caso ainda faltem os dois
Não falta nada: Fausta é tudo.

- Primeira hipótese: Deus não
Existe e, por isso, o Diabo
Também não. Segunda: Deus
E Diabo podem não existir fora,
Mas no interior de cada um.
Terceira: se a anterior correta
Como eliminar os hóspedes?

VOZ EM OFF:

- Por amor, ela se tornou puta
Antes do tempo. O primeiro
Homem sempre como o beijo
Da morte: nada mais nasce
Depois em outras noites.
O que toca, antes estraga.
E o que nasce da mulher
Mata a própria mulher.
Se eles usam preservativos,
As suas ideias porcas, não.
Belas, são cuspidas. Sempre.

- Uma lágrima cai. Mas não
Encontra a outra, branca, presa
Na pele do preservativo.
Amar, porra! Ainda que os dois
Faustos mundos não se toquem.
Que águas não se abracem
Em línguas líquidas, sujas.
E bocas não secretem dor
E ainda lava e saliva e bile.
Que nada mude a memória
E verta o volume da tarde,
Porque a lágrima seca rápido.


O lado bom do inferno. Fausta
e Mérope na sauna. Seca.


- Mérope: Infância, de chão
Batido e coração. Tudo faltava:
Pai, farinha, sapato e porvir.
Casa de taipas, panela de água
E ainda luz filtrada na retina,
A noite comia olhos, a mesma
Maquiagem: cara suja de terra.
- Fausta: Infância aguada
A minha porque pouca tinta.
- Mérope: A minha: tão seca
Nas caras, labirintos de pele
Linhas secas, outro chão.
Tão pouca água que nem
Essa outra água: a lágrima.

- Mérope: Minha primeira vez
E cama: grama. Travesseiro
De terra e tio e estupro.
Hoje, nem tanta diferença:
Homem ainda essa dor.
- Fausta: Homem, acho, come
Por dentro. Será sempre?
- Mérope: E mais e mais e mais
Até a pele nada envolver.


Madrigal. Fausta e Hebe retocam
a maquiagem. Da noite.


- Hebe: Na mitologia servia
Néctar e sempre ambrosia.
Agora eu que sou servida.
- Fausta: Branco mel: coração
De glande: você a serva.
- Hebe: sexo extravasado, ladrão.
Qual é o volume de cada um?
- Fausta: Você serve os homens
Mas logo não servirá para eles.
Sempre a mesma armadilha.

- Hebe: Fausta sempre Fausta
- Fausta: Nem sempre, isso:
Sempre por enquanto.
- Hebe: Terna e eterna, você
Que foi servida por deuses.
- Fausta: Ser para servir?
Viver, ato mais solitário.
- Hebe: Memória: sexualidade
Branca: prestidigitação
Na superfície rosada, raio.


Make-up: no lápis a súbita
lágrima de Filomela.


- Fausta: Nádegas do cérebro,
Prazer, ânus virtual. Bem aqui.
- Filomela: Mulher puxada
Pelo braço, memória.
- Fausta: Só no amor, o homem
Ocupa o lugar das culpas.
- Filomela: Como ter esperança,
Acreditar assim no porvir?
-Fausta: Melhor que ter: não ter.
Nada espera da esperança,
Esse sentimento populista.


Living. Sofá. Fausta
fecha os olhos sonhando
ser outra.Sem noite.


- Durante algum tempo, Fausta
Foi a parte boa da noite.
Moeda que circulou de mão
Em mão, de cama em cama.
Que, na paridade com a outra
Fausta, intocada nos sonhos,
Se desvalorizava cada vez
Mais: era preciso mudar.
De vida, de casa, de ares.
Ter outro trabalho, empurrar
A linha do horizonte além.
Enfim, oxigenar ideias, sonhar
Outros sonhos, acreditar
Em alguma coisa, pra variar.


Fausta abre os olhos
para de novo os fechar.
Suas mãos, cortinas.


- Fausta também prefere querer
O nada antes que não querer.
Ainda que, bastante insegura,
E, como os Ianomâmis,
Entrevia essa possibilidade
Entre folhas, meio que de viés.
Se por um lado, Mefistófeles
E os filósofos da beleza
Por outro, estava ao alcance
Das mãos, essas escultoras
Falsas. Davam corpo a outro
Corpo, mais cheio de curvas
(Estaria grávida?) e nas ideias
Eram como uma outra horda
De redutores de cabeças:
Sexo apenas sexo, nada mais.
Não diminuindo só a pessoa,
Encolhendo seus sonhos,
A exemplo de sexos, caídos,
E também recolhidos.


Anjo Azul. Fausta, cliente e
Quarta feira gorda. Noite.


- Pêndulo o ventre, entre pernas:
Seis horas. Nunca o tempo,
Moinho de dentro, foi assim
Tão lento, tartarugante.
Esperma disperso, tal Antilhas,
Na lua bivalve das nádegas.
O cliente, ainda por cima,
Sem arte, Botero na forma,
Dilata, com seu gordo sexo,
O volume da noite. Mais.


Com o diabo no corpo.
Jacuzzi. Interior. Noite.


- Traficando o amor nas veias,
Mais uma vez. As duas bocas
Ainda amarrotadas, a memória
De outro corpo no seu corpo
Em up-down, Fausta Commedia!
Solidão é navegar por dentro,
Ser é continuar ancorado.
A/mar não pode ser só isso
Nem partir só a gaivota. Não.


Quarta feira. Noite adentro.
Outro homem que nasce
das suas costelas.


- Parábola das nádegas às cinco
Ah, o duplo sorriso mudo:
O sol nascia das mãos, sujas.
Escavar ruínas é próprio
Do homem, como é próprio
Da mulher ser o sítio.
Porque aí toda a memória
E fragmentos que dão idade
Ao homem. Que, pequeno,
Sabe como escapar. Grande,
Desaparece. Como Homo Rex
Que apenas deixa vestígios.


Fausta, cliente e instrumento.
Ela dá mais que ouvidos.


- Corpo de Fausta: cello em mãos
Exímias: ele era músico, porém
Lá por dentro desafinava
(O país também: era Carmen).
Disse que a orelha era o sexo
Que mais precisava, nem ele
Ouviu: já outro, arrítmico
E cheio de stacattos, entre pernas
E nádegas. Para depois os do-ré
Dormindo com o músico.


Sexta feira. Fausta, homem
e geometria. Outros traços.


- Mapa do Brasil entre pernas
Feito de pelos e esperas.
Uma língua masculina: Rio
Grande do Sul. E glande.
Epiderme de países a mulher.
Ou dividida, bovina: acém
Alcatra, filé, como é vista.
O sentimento é outro país
Que se descobre depois
Com seus bolsões de miséria
Terrenos baldios, falso coração.
O cliente, pobre professor
De geografia. E Fausta
Corpo ligado ao seu, África.

- Amor, coisa de segunda mão:
Corpo, pernas amestradas
O norte do sexo, orientado
O coração, motor e sede.
Mais que não machucar
É não sair machucado.
Mais que o amor-próprio
É buscar o que ainda vai ser
(Com outro nome, mas próprio
De uma nova propriedade).
Em primeira mão: não, baby.
Não é o amor que vem antes,
A gente que vem depois.


Livro de cabeceira. Diálogo
subjetivo de Fausta.


- Eliot: Esta é a tal realidade
Da memória: libertação.
- Fausta: Esta é a inutilidade:
Liberdade condicional.
Porque nunca ficamos livres
E a volta à cela quase certa.
- Eliot: Escuro, escuro. Todos nós
Mergulhamos no escuro.
- Fausta: Esta é a memória, rio
Que não seca nem deságua.
- Eliot: Estás onde não estás.


Suíte. Da poesia para a prosa.
Ou a falta dela. Quase dia.


- Fausta está onde não está.
Não, a vida não pode só ser.
Mas mulher melhor lugar.
Pela janela, noite sumindo
Na boca suja de um boi.
Um cão ladra para a manhã.
Aqui, pelo ladrão, a água
De uma outra casa das águas.
Morre mas ainda morde
O homem: pele, saliva e sono.
Como um São Bernardo,
O conhaque na taça dos seios
Sobre a neve dos lençóis
Sépias todos, brancos nenhuns,
Breve holocausto de corpos.


Uma hora depois: Fausta
atravessa a rua, pensamentos.
O jornal seu braço.


- Cada fábrica um moinho,
Mãos e operários investiam
Com palavra-chave de fenda
Contra as velas do capital.
Do outro lado da avenida
Alguns garotos em greve
De aulas, lápis e réguas,
Eram sim outros moinhos.
Com seus cataventos, girando
Na mão suja, anti-horários.
Ninguém sabe: com eles
Brinca Deus de Dom Quixote.


Outra noite. Fausta, cliente
e o que não adormece.


- Boi, moinho da noite
Moendo os pensamentos mais
Densos, farinha de estrelas
E o joio da manhã: no linho.
Como Esfinge nos lençóis,
Fausta deveras se decifra
E, sobretudo, se devora.
Ao lado, nas dobras do dia
E do edredon, a ponte da noite.
No varejo da relação, peso
Que falta: roubada nos gramas.
Se não é por amor, a mulher
É antes cuspida por fora
E logo depois por dentro.
O que nela deságua falso rio,
Busca, sim, o mar avesso.
Sol vai que come chão e cama
Ardendo nos corpos e lábios.
De manhã, catapulta de palavras.

- Coração de Fausta.com
Era preciso a senha e o link.
O sésamo para a rosa não
É a rosa. Apenas dinheiro:
Apenas rosa, sem alma.
Mas ainda jardim suspenso
Sobre pernas, vãos, distâncias.
Salto alto sustenta a tarde.



11:00 h e Margarida no prato
das mãos: Fausta alimenta
seus fantasmas.


- Margarida, esse terreno baldio
Que poderia ser essência
Mas que é água e perfume.
Um corpo que se alastra
Mais e mais pela memória
E, mais que tudo, fora dela.

- E este rosto, feito à mão
Por um Deus já cego
Que poderia ainda ser tátil
Por Eros e por toda noite
Mas erosado pelo tempo,
O tal escultor às pressas?
Hoje se entra numa rosa
A mulher fica à sua volta,
Repuxando a lembrança
Então como uma fimose.
Anoitecendo, amanhece:
Uma mulher é apenas isso
Mas é mulher. Às vezes, canta.


Fausta já no colo de
outro cliente: grandes lábios
dublados. Noite.


- Uma palavra dentro da palavra
Dentro da palavra, dentro
Da palavra, vazia: ou quase
Tudo o que nada significa:
Virgem mãe, filha do filho
Sem voz própria, ventre
Ventríloquo: Fausta no colo
(Na ponta dos dedos, o código
Das águas, telegrafado).
Sempre envolvida para envolver
Com seu sexo outro sexo
Mas ainda sonhos no fundo
De uma sépia gaveta, essa.


Próximo cliente e seu mar.
Mas ela pensa outro.


- Orelha no outro búzio
Retorcido. De lábios e noites.
Outro mar de ouvido,
Marina dentro do corpo.
Na praia, o que é pele apenas
Separa então o mar de fora
Dos teus lençóis de dentro.
Às vezes, simples mulher e rio
Fio de pureza e perigo.
Que corre só para os sonhos
Como se fosse para o mar.
Não antes de polir pedras
E, depois, amaciar homens.


Outra noite e déjà vu.
O que ele tinha de igual.


- Homem ou salmão sempre
Voltam a antigas águas.
Mulher, princípio a seguir
Como um fim em si mesmo.
No falso rio de dentro,
E moinhos de fora, um só
Sentido: dar voltas ao homem
Para a sua volta, que é
Ao mesmo tempo partida.
Perdeu-se o homem no rio.
E, reto, volta sempre ao labirinto
De lábios, rio da mulher.
Às vezes, atando sim um
Ao outro, o fio da urina.

- A volta não é o rio da ida
Mesmo sendo o caminho.
A volta à mulher, cheia de voltas.
Linha reta a maior volta.
Taí o eterno retorno, salmão
Contra o tal curso, salmos.
Vida, ida e partida na desova.
O fim está no seu meio.

- O início tem esse princípio.
Rio de água doce, a memória
Plácida ou ácida, deságua
Entre pálpebras, lágrima.
Ou, entre os dedos, sêmen.
Salmão sempre, o homem
Que volta ao teu aquário
Para ser tão doméstico
Como esses gatos e pulgas.


22:00 h. Outro cliente e
a mesma estranha sensação:
homens se parecem, todos.


- Seu corpo, arca da aliança
Com suas leis e ícones.
Cruzada de pernas, a lua
De lábios mudos. E de joelhos.
Seu corpo, mosaico de claros
E escuros, peles e sépias
Úmidos e águas, cristais
E cristalino, onde o cliente.
Seu corpo, simples arca
Da sua outra idade. De cartas,
Souvenirs, pétalas secas
E, agora, águas guardadas.


Margarida no quadro da
sua memória. Dedo e clitóris.


- Chegou sem o suprimento
De sonhos e fome de manhãs.
Tábuas de leis, skates na rua,
As unhas sem luas, a voz foz
De águas e sílabas sujas.
Os dedos dedalus búzios,
Marina da mesma memória.
A seta da tua calcinha, vela
Sobre águas mordidas de sal,
Abre caminho. E se afasta.
Para encalhar em outro corpo.

- Teu delta, nascente e foz
Do mesmo rio. Ou miasma
Ou barco ou charco em arco
Entre as coxas, estuário
Da lembrança feita de sal.
E o fio de Ariadne para sair
Desse labirinto. Homens
A bordo: braços como remos,
Às voltas do corpo, arcaicos.
Os lábios de baixo outro barco.
O norte é sempre o corpo.
E a mulher, sempre o lastro.


Sexta feira. Fausta,
papel-higiênico e realidade.
O cliente espera.


- Homem às costas: a mulher
Cria asas, mas não voa.
Não pode, é outro anjo caído.
Homem sempre essa asa
Que, antes mesmo de mulher,
Abraça causas perdidas.
Em outras palavras: tem asas
Porém não tem o azul.
Ave que, em vez de voar,
Preferiu ciscar as manhãs,
Comer demais. E criou peso.


Varanda, livro e diálogo
subjetivo. Começo de noite.


- Souzandrade: Orfeu, Dante e
Enéias ao inferno desceram.
- Fausta: E eu, sem Virgílio.
- Souzandrade: O Inca há de subir.
- Fausta: Aí, eu já não sei. Não sei.
- Souzandrade: E voltava Dante,
Do Inferno de Wall Street...
- Fausta: E eu chegava ao Brasil...
- Souza/Dante: Ogni Sp’ranza
Lasciati, che entrate?
- Fausta: Toda, toda esperança.


Enquanto isso, Mefistófeles
mostra sua outra cara.
Não para Fausta, é claro.


- O Diabo podia ter mil caras
Mas uma só cara no sexo.
(Possivelmente, algum verso
De saliva deixou no sutiã).
Falso e verdadeiro numa só
Pessoa, homem e demônio
Em perfausta coincidência
De mito ou hipocentauro.
Desejo do criador: a criatura
Possuir ainda a feliz carne
De uma só alma, diversas
Vezes, de formas diversas.
Esse corpo, algum diamante.
Luz incide e mostra o Diabo
Que era Mefistófeles de face
Ou de cara nova. Sempre.



As 36 caras de Mefistófeles
e o pequeno coração igual. Como
todos os homens.


- Persona, sim, de mil caras
Porém, uma só cara abaixo:
Seu pênis a réplica, a cara
Ou a caricatura perfeita.
Na glande, rosto em febre
Como em madeira esculpida.
De pé, hirta Ilha da Páscoa.
Como gárgula na praia,
Um pequeno coração, talhado
Para descobrir a tal seda
Cor de rosa e feminina.
E, como um para raio, atrair
Suas tempestades. E águas.


Fragilizar para conquistar,
pensa Mefistófeles.


- Mil vezes amou o tal Diabo
A mesma cara. Ou, então, uma
Só vez mil Faustas. Ou exatas
Trinta e seis vezes e noites.
Ou tantas formas de dizer
Bom dia segundo Bertolt,
Shakespeare e o velho Goethe.
Ou isso: uns pobres-diabos
Seguindo um script igual:
Ser diferente, ser outro, ser.
Nada mal para quem amou
Odiar mefistofelicamente.
E também agora era simples
Mente não apenas o inverso.
Amar Fausta, que pré-Fausta
Nada suspeitava de entregas
E intrigas, águas e anáguas,
De saliva e anáforas entradas.
E de trinta e seis vezes mulher.
Melhor: Fausta para não trair
Seu amor-próprio, traía
O sujo instante: Helena: sim
Sua segunda pele, sua fuga,
Seu preservativo interior.


Mefistófeles, agora ele
mesmo, torna a procurar Fausta.


- Fausta: Homem corpo estranho
Onde a mulher é mulher
Mais profunda: superficial.
- Mefistófeles: Mulher é pele
De dentro e de fora, uma
Mais necessária que a outra.
- Fausta: Qual a temperatura
Da mulher, a febre do homem?
Porque então não conhecer
Uma mulher só em si.
Para si, um homem só explica
O que não é uma mulher.
- Mefistófeles: Coração, romã,
Grã granada no seu peito.
- Fausta: Nessa gaiola, o cérebro.
Coração é outro músculo.
- Mefistófeles: Às vezes, simples.
Outras, nada então se decifra.
Que filosofia em pele viva.
É carne e pensa que pensa.
- Fausta: Ela: pureza e perigo.
Em outras palavras, sangra
Todo mês, placas e luas.
E, nesse rio, ela então muda.
Outro Heráclito, assim, na ida
Sendo ainda a mesma mulher.
- Mefisto e o mesmo mito,
Sua natureza: para superar
O homem, superar tudo.

- Mefistófeles: E você ainda
Acredita em Deus, pode?
- Fausta: Talvez por isso.
E por acreditar antes em mim.
Não sou Deus, ele sou eu.
- Mefistófeles: Deus: mulher
Que não sabe ser mulher.
Não aprendeu amar ninguém,
Nada, homens nenhuns.
Esse Deus não sente calor
Ou febre no que ainda é. Não,
Não sente. Ou sente muito.
- Fausta: No homem um outro
Que não sabe ser homem.
Porque se a mulher é febre,
Deus não é nunca ereção.
E se Ele faz parte de tudo,
Deus existe no próprio Diabo.
- Mefistófeles: E por que não
O contrário? Em Deus, o Diabo?

- Mefistófeles: A idade cruel
Da mulher, amor. Tudo por ele.
Na segunda idade, o dinheiro.
E todo amor por ele, Fausta.
- Fausta: A mulher sempre
Esconde sua idade. E quantas
A cada dia e persona.
- Mefistófeles: Não esconde
Onde olhos são eclipses.
A mulher real é antes
Uma lagarta destrutiva,
Tão ardente, verde, voraz.
Depois, o amor é amorfose:
Seu coração, crisálida.
E já asas batem caos e cães
No sol da manhã malsã,
A segunda idade da mulher.
E outras cruéis intenções.
-Fausta: De um lado, então,
A linha dágua das cédulas.
De outro, suas asas. É isso?
- Mefistófeles: Os dois lados
Da mulher, toda mulher, falsa.
Verdadeira, outra mulher.

- Mefistófeles: Se não é assim,
Olhe para você, em volta.
Lugar velho, úmido, sujo.
Há uma fícus na sala, porém
De folhas verdes, roídas.
Também a febre das horas
E a seda dos interlúdios.
Mas o dia tem patas, quantas?
Há livros e também traças.
Há luz e uma mulher feita
De sombras sobre sombras.
- Fausta: Há amor e mais nada.
Aqui, apenas uma mulher
Em busca de uma mulher.
- Mefistófeles: Procurando sim,
Uma outra história. Restos,
O amor é sujo. O dinheiro, asa.

- Fausta: Mãe nasceu, viveu
Neste lugar ainda que sujo.
Depois, a ditadura e fuga.
E pele deixada para trás.
- Mefisto: Não disse sujo
Por mal, mesmo pensando.
- Fausta: Meu canto e habite-se
Com suas teias e mortes.
A noite é urdida ainda aqui
Nos silêncios. Hoje, lagarta.
Amanhã, asas de papel-moeda.
Não é isso, meu caro?
- Mefisto: Amor e dinheiro,
Os dois lixões da mulher.
Catando sonhos entre latas,
Vidros e preservativos.
E outras coisas que fedem.


Mefistófeles sai. Fausta
fica com a foto da mãe nas mãos.
Por que isso agora?


- O labirinto-rosa: fácil é sair
Porque difícil é entrar.
As nádegas: adegas de vinho
Branco. Para não ter filhos,
O anticoncepcional natural.
As outras águas ficavam
Mais para o ato, atocaiadas.
Assim, a mãe de Fausta
Nessa geração de não gerar.
Porém, até ela um dia acreditou
No amor em estado líquido.
E abriu os olhos para dentro.


Fausta e outro homem. Ou outro
alter ego de Mefistófeles.


- Homem, urubu-rei sobre
Voa partes que cheiram.
Ali, no forcado das pernas
Tudo dispara: o verdadeiro
Coração e o pequeno coração.
Um pulsa vermelho, o outro
Outra água. E não é tudo.
Bate braços e antebraços
O que é um homem senão
Morte lenta, inclusive


O cliente dorme com que
segredo? Ela: quase só. Quase
noite. Quase dia.


- Mais no seio esquerdo, a luva
Do coração. A vida se esquiva
No entanto, é um pugilista:
Procura a má consciência
Insinuando jabs e diretos,
O amor é sempre um upper.
E explicação: nocaute, não.
Viver é perder por pontos.
(Amanhece, o sol mama luz
Do outro seio: a montanha).

- Figlia del figlio, o cordão
Umbilical une duas pessoas,
Alimenta uma à outra, farta.
Ou já dissemina mais ira.
O amor, esse cordão e ponta.
Liga o que não é único e
Se estende adiante, invisível.
Mágico, permite entrar e sair
No labirinto do coração.
Frágil se cortado: lá ficamos.

- Tensa e lassa, intensa e breve,
A noite passa no seu corpo
Esculpido por mãos, perfeito.
Noite, bloco de mármore
Forma e fundo surgindo pele
Talhados a sexo, unha e cinzel.
O corpo doido, doído: fala
Sombras invadindo sombras,
Atraindo pardais ora pombas.
Amor ou porra suja, a estátua.

- Figlia del tuo figlio, piquenique
À sombra da cruz. O Judas
De pano tomou lugar de Cristo.
Agora no poste, malhado.
Assim um urubu faz círculos
Assado, outro aqui entre dedos.
Fé, lógica: nada funciona
Realidade é sempre a fome.
O lixão, prisão. Mais um sonho,
E outra tentativa de fuga.


O cliente acorda. Fausta fecha
os olhos: outro massacre.


- A vida entre braços, entre
Parêntesis. E nada sonegado:
O sexo, seu corte e o rabo.
O beijo, não: entre lábios, guardado
Com os demais guardados.
Quem avista as ilhas dos olhos
Conquista a outra reserva
Na dança kwarìp do peito.
E depois, a cidade submersa.
Rios, países, sonhos: o corpo
É outro continente, contido.
E à noite, outro alambique
Destilando sêmen em lágrimas.


Sé do Inferno. Agora é
Mefistófeles que fecha os olhos:
de novo o corpo de Fausta.


- Às vezes, Mefisto. Outras,
Um Midas: tudo se toca &
Se transforma em mim.
O outro deixa de ser outro
Para virar também parte
Onde me reconheço Isto.
A caixa de lápis de cor
Repinta a lembrança.
Feito areia, atraio uma onda
E mais outra e outra mais.
A identidade de cada toque
E de cada ser, essa a digital.
O código braile traduzindo
Seu outro código, calor
E suor e frio e calafrio, da pele
De dentro e do outro lado.

- O que toca ou roça o olho
Tudo contido se transforma
Em mim, outra energia.
E só de olhar, antes mutado
No próprio ser ou coisa.
A beleza é refém do poder,
Parte e arte do olho e corpo.
Depois de milênios, a alma
Não serve, ficou pequena.
Corpo é a nova alma, moeda.
E, Fausta, a mais valorizada.

- Eu já disse isso: o mal come
Do bem. E também vice-versa.
Desde Ulisses, existir é a pior
Heresia para a Igreja Católica.
Sua ideia fixa: não aceitar
Ver ninguém sem sua cruz.
No país da Máfia, a outra
Ainda mais podre e perene.


Fausta conhece Isto. Enquanto ele
pensa, ela é mulher. E pratica.


- Madre má que chora, rosa
Entre as pernas. Ética não há
Religião ou qual Filosofia,
O prazer é água benta, salobra.
Elétrica, central de força
Transformador de cada um.
Gera mais que a luz do olhar
Move os braços-moinhos
Em fábricas, pontes, favelas.
Esfarela pedras, palavras duras
No dia frio como marmita
E até sopra sonhos em pó
Onde o país é sujo, suado.
E a vida cheira a merda.

- A maçã amarga, a marca
Do homem. A vida, Eliot,
É que vem verde e dentada:
Ela que te experimenta.
Ainda assim: provocar o amor
Como um vômito, por que
Melhor amar que essa ânsia,
Nó e espartilho de ossos
Na gaiola tosca do peito.
Alma não tem mais mistério
Que o corpo, e mais é Isto.


Cantina do Pietro. A ceia
das prostitutas. Boca e pão.


- Antígona: Pena em mim.
Pernas como grades, trancadas
Onde também se fecham.
- Fausta: Por dentro, pior prisão.
- Antígona: Porque a esperança
É o pior investimento.
- Fausta: O que no lugar dela?
- Antígona: Nada, antes nada
Que esse pássaro de água
Entre dedos, bicando o chão.

- Fedra: Se a mão do homem
Não encontra a outra
Não há dentes de esmalte,
Engrenagens. Nem grades
De dedos, outra gaiola
Para essa ave quase muda.
- Fausta: Homem, um rio frio
Sem afluente feminino.
- Fedra: Rio que não chega rio
Mas fio, embora doce.
- Fausta: Sua seca, nordestino
Destino do homem. Esse.

- Eurídice: Amor, dinheiro.
O que falta para a mulher
Ser ainda outra mulher?
- Fausta: Em mim, a falta de mim.
- Eurídice: Porque é o que sobra.
- Fausta: O castigo em mim
E para mim. E essa culpa.
- Eurídice: Culpa, cruz, mastruz.
Há outra água e sede?
- Fausta: Minha obra em negro.
Outra mulher, depois.


- Fausta: Nove cabeças, Hidra
E ainda assim quantos eus?
- Hidra. Cada eu um país.
Coração que se divide
Em tantos estados, homens.
- Procne: Homens: da mulher
Roubam os melhores anos,
Sonhos, emoções e águas.
- Hidra: E da concha, bivalve,
A rara pérola, aos porcos.
- Procne: Mulher aos homens.

- Dejanira: Por outro, homens
A liga. Essa substância
De que são feitos os sonhos.
- Hidra: À noite nos grudam,
Dão sentido, são sêmen.
Às manhãs, nos dispersam.
- Fausta: Juntos, areia e ouro.
Que mão de um Deus
Na bateia balança o instante
E, aos poucos, separa?
- Hidra: Entre um e outro
Então, que outra parábola?

- Dejanira: Quer saber: outras:
As parábolas das nádegas.
- Hidra: São mais linhas
Como sorrisos para lábios.
- Procne: Muro, urina, ratos,
Hálito da noite e eles.
- Fausta: Homens, frágeis
Como as incertezas.
- Hidra: Espelho, o homem
É inversa pele do homem.
Como a própria eutanásia.


Luz acesa. Fausta escreve.
Diário ou noitiário?


- Diário de Fausta, palavras
De Quintana: a vida é preciosa
Como um pão roubado...
Mas onde e que fome é esta?
Ah, e cadê a vida sovada
Como pão, coração mais duro?
E o porvir ainda transforma
Mais e mais o miolo em côdea
Se é adiada a fome rara.
Pior da vida: ter o pão à mão
E faltar a vontade voraz.


Fausta, espelho e outra crise.
Vender a alma ao corpo?


- Vive morrendo à nossa volta
O definitivo finito fim.
A abelha um dia, o dia outro.
Não o pensamento sobre ela,
Ainda que, outro mel e dia.
Pensamento: a oitava vida
Do gato, atropelado de luz.
Deita o corpo e a palavra
Sobre a lápide: memória, não.
É assim: a gente se engana
Porque se ama: pensamos
Que somos quase eternos.
E somos, enquanto pensamos.

- Lábios como grãos de café.
Os outros róseos nem isso:
Afundavam uns sobre outros
Para dentro, em volta do corte
Como se sempre feridos.
Não importa muito: o Brasil
Perpassa entre lábios (pequenos
Ou lassos) faca ou adaga.
Espirrando sangue branco,
Justamente onde se afunda
O sexo da mulher. E ela.

- Desde menina, a mulher
Quer, sim, ter voz própria.
Mas do jeito mais difícil:
Sempre no colo dos homens,
Qual ventríloquo de Deus
E por outra vez, dublada.
Não teria que ser assim:
Se desse ventre sai homem,
Por que então ele é húmus
Para ela mesma ao vento?
Sim, aqui dinheiro ou carinho
É quase a mesma moeda.


Fausta mais uma vez como
Escaravelho atrás da vida.


- O tempo passa sem passar,
Volta atrás, arrependido.
E amanhã será de novo hoje,
A memória-caranguejo.
Por isso, Fausta gasta a vida
Porque sempre com dezoito
Tem muita e mais pela frente.
Lá fora o instante-escaravelho,
Atrás das vacas, girando
Pequenos mundos de estrume
E indecência. O homem.


Doce enxofre dos homens:
Fausta não suporta mais
ser prostituta. Que fazer?


- O amor que morre amanhã.
Dissolvido, água entre outras
Sujas águas. Morre: dedos
Entre outros dedos. Dedos
Como engrenagens, emperradas.
Que, quase nada, não movem
Sonhos ou outras manhãs.
Morre rápido, porque rápida
Foi a entrega em cada boca,
Entre dentes lactibrancos.
Antes, voraz. Depois, os silêncios.
Morre, no outro dia. E sempre
O cheiro do corpo, espécie
De repelente de outro corpo.
Morre, sim. Para ressuscitar.
Prostituta, a vida não usa
A pílula do dia seguinte.


A segunda ceia, quase uma
convenção. Ainda não sabem:
a partida está próxima.


- No Capim Santo, as doze
Prostitutas experimentam
Travessas e conversas.
Os homens, uns vampiros.
Somem das suas vidas à luz.
De noite já os primeiros
A buscar outro sangue
Em troca do seu, branco.
Doze mulheres e o mal:
A consciência inconsciente.
Elas sabem que algo existiu
Pelas marcas que escondem.
Bem perecível o amor.

- Mérope: Mulher ou puta,
Esse o grande latifúndio.
Homem só explora pequenas
Áreas, águas e charcos.
Um Hermenegildo: paletó
De arame farpado, de vidas
Senhor: sabe lá o que tem.
- Fausta: Homem sempre
Um pequeno proprietário.
- Mérope: A mulher, porém,
Sempre humilhada, cuspida.
A porra e o espanto, ah,
A cara e a posse. Até quando?
- Fausta: Não pode assim
Ser tratada: destratada.
O amor-próprio ainda fiel
E principal propriedade.
- Mérope: lavar a cara, láctea
A tal máscara até que sai:
A ferrugem branca é dentro.

- Fausta: A mulher é feita
De esperma e esperas, brancas.
- Hidra: Esperma e eras de gelo.
Grande amor não resiste.
Pesado demais, inerte.
- Fausta: Nenhum sonho,
Homenssauro nenhum.
- Hidra: Homem e mulher.
Entre eles, nada sobrevive.
Apenas pequenas coisas,
Que em momentos de solidão
Serão, sim, de outra espécie.

- Filomela. Trinta dinheiros:
Fausta é que trai Fausta?
- Fausta: É tudo: nada compra
Se ainda há um só sonho.
- Filomela: Então, ainda há um?
- Fausta: Sonhar já é um sonho.
- Filomela: Antes assim, tarde
Que mais tarde: há sempre
Uma possível manhã. Depois
Da noite, dos homens.
- Fausta: Eles, ah, quando
Nos sujam, decantam.

- Mérope: Todo homem é
De outro homem. E a mulher?
Vie en rose ou Spinoza
- Fausta: Por que isso agora?
- Mérope: Vender o corpo então
Por que não continuar puta?
Por que véu e igreja e vender
A alma e o corpo da alma?
Porque também o pacto
Como todas as mulheres?
Em vez de amor, segurança
E de auto-estima, moedas?
Ah, chupar o pau do cara
Apenas é isso: o veneno
Branco da víbora cuspido.
E beijo como antídoto?
Talvez um cravo disfarce
O gosto amargo na língua
E o azedo de ser mulher?
- Fausta: A vida uma pedra
Sempre na mão outra face
Mais soturna ou clara
Conforme incide o olho e luz.
O que assim parece veneno:
Podem ser flores brancas?
Entre lábios, dedos, línguas
Ou enfeitando cabelos?
As mulheres fazem pactos:
Por amor, insistem sempre
Por isso, quase silenciadas.


Isto volta aparecer no Anjo
Azul. Ah, se Fausta soubesse
que Isto é Mefisto.


- Por dinheiro, uma mulher
Dá o que tem de pior.
Quase isso, por caridade.
Roupa que não serve mais,
Corpo que ainda se usa,
Sentimento como naftalina.
Por amor, pior. Porém
Dependente, toda mulher
Gosta da droga mais pura.
Por uma ou outra razão,
Fausta estava ali, frente
A Isto, aliás, atrás das suas.


- Fausta tira a roupa, troca
De pele. Guirlanda de braços
Às voltas do seu corpo:
Mais a mulher cresce aí,
Nos limites do homem.
Ou na medida de um abraço.
Corpo aberto, o sésamo.
Olhos fechados, as cores
De dentro. Sua água e febre.

- Isto era mais uma persona
E tantas almas na pele.
O corpo, outra temperatura
Irradiando insólita luz,
Dilúcida. Marcando sim,
A branca pele de Fausta,
Lúcida. Entre outros sentidos.

- O seio, a boca: o coração
De Fausta batendo na arcada
Superior desse alter ego.
O sítio, a rápida escavação,
A mulher se reconhece
Entre os seus fragmentos.
A asma de quando se ama,
Como o relógio da noite.
Em sentido anti-horário,
O corpo. O pensamento, não.

- Pernas promíscuas, corpos
Deitados. E a esgrima.
O mal, sempre sonâmbulo.
De manhã alguma palavra
Acompanha a mão: mais
Uma tentativa de seda.
(Amor, carícia mal feita
Depois da primeira vez).
O sexo como Jonah, dentro
Baleias brancas, nádegas.

- O Diabo é o homem perfeito
Dentro da mulher. E fora.
Amor, priaprismo, suor,
Liga que gruda dois corpos.
E mais esse boneco de pano
Alfinetado ali e sempre, vodu.
O grito autentica o amor
E o corpo que não para.
Que dispara. Flores brancas
Mulher, ferida aberta. E sorri.

- O sexo ainda presponta lábios
Em fios líquidos, às vezes
Delicados, outras nuvens densas.
Seio direito, outra vertigem
E qual fantasma de leite.
Clara manhã ainda de olhos
Fechados, abertos sorrisos.
E assim tudo passava, as horas
Tantas como cílios. E o suor
Que então evaporava, azul.

- Por amor, idem: a mulher
Dá o que tem de pior:
Água e pura química.
Dependência ou bússola.
Sabe como traficar sonhos,
Sentimentos alguns e sedas.
Mulher, essa fausta droga
De iguais tantos finais:
No corpo, no chão riscado
A giz, ela pula amarelinha.

- Isto ou Mefisto não para.
Mãos, uma biografia a dois.
Salamandra: o corpo queima,
Solarizado por outro corpo.
Tempo é outro tempo, sim,
Dentro de uma mulher, denso.
O Diabo, como homem, sabe
Deus, sempre como Deus, não.
E para quê: se na crisálida
Às vezes, homem é asa?

- Ou quase: eram borboletas
Que saíam agora da vagina
Traçando ares tortos e tintas
Ou que caligrafia no quarto.
Dezenas delas, brancas, azuis,
Monarcas, sujas, amarelas.
Fausta, então, não sabia mais
Se de olhos abertos ou abelhas
De dor ou asas da mente,
Essa sim outra crisálida.


Dia seguinte: Mefistófeles,
contrito, abre a partida de xadrez
com P4doR. E levanta o olhar
para a cadeira à sua frente.


Outro jogador: P4 da Rainha.
Mão no relógio, tempo.
Mefistófeles amarrota sorriso
No canto da boca. Tenso, C3T.
Outro jogador: retribui o olhar
Ironia e meio sorriso: T2T.
Mefistófeles, irado, rebate
O punho fechado na mesa.
As peças tremem, B2 do Rei.
Outro, impassível. Dedilha
O queixo e as ideias. Tempo.


Acontece o primeiro assassinato.
(Mefistófeles joga pra valer.
Depois levanta e senta na outra
cadeira. E pensa como Deus).


- O sol invadiu o seu quarto,
Foi acariciando seus pés,
Coxas, ventre e mamou de luz
Um seio, eclipsando outro.
Viu tudo sem ser visto: Hebe
Estava de lado, nua e ainda
Quase viva, mas sem olhos.
Ainda azuis, nadavam, cada um
Em um copo de água turva
Cor de sangue. E, do criado
Mudo, viam de fora a cena.
Sob o copo, um cartão (de visita?)
E um verso de Shakespeare:
“Those are pearls that
Were this eyes”. E ainda “P4R”.

- Uma tragédia sem sinais
De tragédia e marcas de luta
E sem máculas no corpo:
Nos pulsos, pernas, pescoço.
Ou nas fundas aberturas,
Onde talvez outro corpo.
Tudo havia se tramado
Como se nada tivesse ocorrido.
Mais que simples assassinato,
Uma pós-cirurgia, sem dor:
Na face, um estranho sorriso.
De quem, sem olhos para dentro,
Também morreu sonhando.

- São olhos como espelhos,
De tudo nada se guarda.
Nem o que passou há pouco
Como o reflexo do inverso
Para o próximo instante.
Olhos como ímãs e rimas
Do que ainda é uno e Hebe.
O amor finge mais uma vez
Nesse telegrama da tarde.
O código de luz, o Morse
Do que é atual. E morte.


Segundo assassinato.
O Diabo como Deus faz a sua
jogada. E sorri para a cadeira
à sua frente. Vazia.


- Não era bem como Marat
Que, de febre, aquecia a água.
Hidra, ao contrário, se aquecia
Porque na pele só paixões frias.
E por tudo, outra sorte: em vez
Da lâmina de La Corday,
Entre espumas e ais e sais,
Uma cobra d’água: o punhal
Que se invaginou como pênis
E, igualmente, cuspindo
Outro veneno por dentro.
Nas mãos de Hidra, a cobra
Também morta, angulada.
No cartão, ao lado do corpo,
Agora palavras de Rimbaud:
“J’ai vu l’enfer des femmes
Là-bas”. E outra jogada: “P4D”.

- Laudo: amor sem antídoto
De todo jeito, extermina.
Às vezes, devagar, por amor.
Outras, sem dar um tempo.
Como veneno: entra e sai
De um labirinto para outro.
Do coração para esse ninho
De cobras do seu cérebro.
E tudo para como a tarde
Parada no ar, velha estátua.
De Hidra, mulher e puta.


8:00 h. O detetive Nigro vigia
Antígona. A intuição quando
falha, outra faca.


- Ah, uma daquelas manhãs
Cinzentas, frias, úmidas:
São Paulo era uma mulher
Entre lábios de cobertas,
Dobrando suas esquinas
E oferecendo outros vazios
Para águas pressentidas.
As janelas, vãos e gárgulas
Debruçadas sobre o detetive.
Há quanto tempo ele ali
Se o tempo é de dentro?

- Arquitetura de fora:
O tempo estica suas linhas
Abrindo cáries na pele. Morde
Portas e gelosias e sonos:
A noite transpira culpa
Na sua parte mais íntima.
Quarto: o carvão da noite
É diamante nos olhos.
Na calçada, um quiçá bêbado
Poeta ou gari de estrelas.
Só depois a lâmpada acende
Antecipando a manhã,
O sangue e brancos lençóis.

- Arquitetura de dentro:
Depois da primeira vez
As terras altas destilaram
O malte dos olhos, espremidos
Por rugas e sobrancelhas.
Mas só depois da primeira
Vez, nunca mais depois.
O corpo engolia o corpo,
Sua boca a outra boca.


Sexta feira: o jogo continua,
idem os assassinatos. Agora Deus
senta na cadeira, joga e sorri
de volta. Xeque.


- 10h35. Fausta atende a porta
E recebe a caixa surpresa:
De Pandora ou Antígona:
Ainda com o brinco de cruz,
Sua orelha esquerda, cortada.
E o cartão manuscrito: “T2R”
Chamou e foi com a polícia
Até o modesto apart-hotel
Agora, afinal redecorado.
De um lado, corpo nu, magro.
De outro, pernas separadas,
Uma da outra como sempre,
E agora também do corpo.
Na parede oposta, Antígona
Exposta: moldura, sem tela,
Enquadrando a outra orelha.

- Tempo. Taxi negro no claro
Escuro, tabuleiro das ruas,
Ainda paralelepípedos
Paracelso Kasprov à direita
Faz a curva, como cavalo.


24 horas depois. Noite.
Taxi, taxi...


- A porta abre-se para Mérope.
Entra, fala: boa noite, favor
Avenida Floriano Peixoto.
Depois de 5 minutos: aceita
Cheque? Ainda não passei
No Caixa. Ah, ótimo. Ótimo.
Paracelso só retrovisava,
Respondia silabicamente.
Tem mulher que, de cara,
Não bate. E aquela, não era
Certeza o tipo-estímulo
Ereção de qual assunto?
Para não dizer que não cheira
Nem fede, um perfume barato
Fugia do seu corpo. Pálido.


Rua de Fausta. Farol Vermelho.
Dia. Primeira hora.


- Av. Oswald: o vento batia
A madrugada como um marido.
Se havia coisa que Paracelso
Respeitava era farol. E ali estava
Ele no meio da rua e meio
Da manhã baça de neblina.
Olhava que olhava pros lados,
Quase negando o instante
Feito limpador de pára-brisa.
Paracelso: assaltado um dia,
Cuidava agora para o coração
Não mais ficar sobressaltado.

- Quando levam apenas dinheiro,
Tudo bem. O que vai, volta.
Mas esses filhos da puta
Sempre que levam a vida,
Que fica aqui, agonizando,
Sujando o banco da frente.
Não foi assim com Arnaldo?
Um pedacinho de chumbo
No seu coração foi o peso.
Não mais: suficiente para
A vida roubar nos gramas.

- Como esquecer: ah, esse
Dominó de pedras e gente.
Sua morte deitou a mulher,
Que mais não levantou.
Que, por sua vez, acordou
O desequilíbrio do filho.
Que empurrou a meia irmã
Para o dinheiro das camas.
Que, sempre sonâmbula,
Tocou cliente escada abaixo,
Que não tropeçou sozinho:
A própria mulher também.
Filhos, idem. Amigos, ibidem.
E o dominó que continua
Até última peça: ele próprio.


Enquanto isso, a partida
de xadrez continua. O Diabo já
demora mais para fazer
a jogada.Tempo.


-Ariadne tão presa por fios
Que não eram de Ariadne:
Fios elétricos nos pulsos e mais
Fios de nylon nas pernas.
Nos dentes, a própria calcinha
Abafara seus gritos no tempo
(Minutos no relógio de pulso,
Ou tantas horas desse outro
Tempo que só marca dor).
Entre as nádegas, uma flauta
Doce fechava o caminho
De volta de ratinho branco.

- No ânus, um rato obrigado
A buscar saída por dentro
De outros orifícios do corpo.
E, igual gente, o rato abriu
Caminhos, fechando outros:
O fio de sangue do umbigo,
Foi saindo e seguindo
O pequeno animal, já fora
Do corpo, da cama, do quarto
E do fio da vida de Ariadne.
(Na flauta, o cartão e Virgílio:
“Et veterem in limo ranae
Cecinere querelam” R2D).



Pátio da Delegacia.
Nigro está saindo. Fausta,
chegando.


- Bico de seio de uma favela,
Morro de Santo André.
Comunhão de gente, Rosa
De cadeiras, leitura de pedras.
Alguns estudantes, outros
Metalúrgicos, efêmeras algemas.
E já um esforço ateu de tecer
O preparo e a crisálida.
O destino, para alguns, sabido:
Pertencer estrela, alfinetada,
Na farda de um coronel.

- Laudo: champanhe francês,
Morangos e porra no estômago.
Amor, sempre a causa mortis
(De um jeito ou de outro)
E o mesmo comércio de peles:
Umas espedaçadas em fotos.
Outras, curtidas ao sol
E sal de todas as lágrimas.


Outro dia, outra noite.
O mesmo jogo: Deus, isto é,
o Diabo enfia o dedo no nariz,
faz bolinha. E depois joga.


- A noite guardou silêncios:
Lábios selados de Medéia
Não por outros lábios: agulha,
Que exímia, amarrotou
Ainda mais raros sorrisos.
Rosas de água os dois olhos
Também com as pálpebras
Pela mesma linha, unidos.
Depois, a mão brincou ave
De espetar mil vezes o seio
E outros pontos do corpo.
Ou isso: Medéia morta.
(Cartão e palavras de Spinoza:
“O método é a ideia da ideia”.
E o lance do cavalo: “C4D”).



Tempo. Mefistófeles olha
para o lado: seu pai: anjo em
chamas. Um quadro.


- Pai Nosso que está no Inferno
Santificado o vosso nome
Assim na Terra como aqui
Etecetra, etecetra. Outra vez
Condenado a ter fé na vida.
Acreditar em santos, deuses,
Porco do Diabo às pérolas,
Saia engalanada, sem alma,
Beijando pó, defumando
Fetos de dois meses ou três?
Deus é bem mais simples,
Inferno é a Igreja Católica.
Posseira de tudo, ouro e almas
E por isso mesmo, possuída.
Assim: rende poder de um lado
E igual miséria de outro.


Outro ícone na parede.
Mefistófeles faz sinal com a mão
no sexo. Círculo e cruz.


- Ao contrário de Jesus Cristo,
Mulher crucificada no pau,
De costas e bunda à mostra.
Surrealismo? Cena abstrata?
Nada: essa é hoje a Igreja
Por dentro da Igreja Católica
E por detrás da sacristia.
O sexo grita em cada cela,
Catacumba, matriz e capela.
Ah, mas há a lei do silêncio.
Ideal ascético, testamentos.
Todos meio sem caminho,
Pobres diabos quase todos.

- Mal resolvidos, mal-amados,
Sublimados. Podiam renunciar
A eles mesmos e renunciaram.
Agora, ajoelham nus, uns
E outros sem preservativos,
Aidéticos, esquecidos, negados.
Pensam em ninguém além
Deles: o umbigo é o outro cu.
Rezam, enquanto as espumas
De liga e esperma aproximam
As línguas ao céu da boca.
E grudam como culpas e hóstias.


Taxi de Paracelso. Sinal verde.
Para a vida, não.


- Medéia faz pressuroso sinal,
Entra. Taxi estranho o pensamento.
Sempre pegando e levando
Clientes como ideias apressadas
Para algum lugar. Não para
Nunca, nem quando vermelho.
Que, aliás, acabou de abrir.
Paracelso engatou a primeira
E saiu. O velho carro engolia
As ruas à frente, devagar.
E o dia ia, se transmutava
Da nuvem cor de chumbo
Para o ouro dos primeiros
Raios de sol. Assim, filosofal.


Enquanto isso, o Diabo olha
para onde estaria Deus e busca
defesa: pequeno roque.


- Diário: terça, quase quarta.
As agulhas do sono: noite
De faquir em desassossego.
Ao lado do corpo, de lado,
Uma boneca de pele e pano.
Vodu inverso e ela: Medéia
Para atingir essa boneca.
Veias vertiam água pelos
Mamilos cor de rosa e plástico.
Outra umidade onde o sexo
Era apenas um simples corte.
Coração como almofada,
Alfinetes como pistilos,
Sua rosa e seda sedada (P4C).


Tempo. Agora é a vez
de Deus jogar e de pensar
como o Diabo. Xeque.


- Ao terceiro dia, Mérope
Encontrada, crucipregada
No casto assoalho do atelier.
Única tinta no quarto e tela:
Todos os vermelhos dentro
Do vermelho. E o crime
Por trás do crime ainda mais
Sujo e pior pentimento.
Na branca face, todos os arcos
Do que não é riso, mas dor.

- Pregos nas palmas das mãos
Cravos nos solos dos pés
E outro mais ainda na rosa.
Aqui, ereta vela, cor pérola
Que, antes de apagar, queimou
O delta de Vênus e gordura.
(No frasco de J. Del Pozo,
Uma gota da Divina Comédia:
“L´Amor che muove il sole
E l`altre stelle”. P6R).


Cena mais aberta: revelação.
Mefistófeles é na verdade o único
jogador na mesa: ele com ele mesmo.
De um lado, joga como Diabo.
E de outro, como Deus.



- C4R Xadrez do sim e do não
Anjo pálido & desordem.
Outra sina e assassinato.
E tudo ao contrário, Deus
É que é uma marionete.
Alcione atada ao alto, fios
Elétricos descascados.
Às costas, duas asas de pomba
Mal costuradas à sua pele.
(A vertigem do vermelho).
Mãos atadas parecem rezar.
Que mulher pode então voar
Se tudo a puxa para baixo?
Força é vencer a gravidade
Do Inferno, a caída após dia.
Cada homem um degrau.

- Sangue, cavalo sem asas.
Também no chão o seu bilhete
E Jorge Luis (de Camões) Borges:
“ A tu patria nostálgica volviste...
Para morir en ella. Y com ella.”


O Diabo agora, em vez de
sentar na outra cadeira, vira o
tabuleiro. E, sem qualquer
cerimônia, joga na vez de Deus.


- 4 de julho, diarréia de estrelas
Hino de país entre as nádegas
(Nova York chuvisca na TV).
São Paulo é, sim, outra coisa.
Fedra já veio como notícia.
Ao contrário do mito, partir.
Nem Hipólito nem nada,
Amor não é tecla de atalho.
E ninguém mais vai cuspir
Estrelas como estados na cara.
No corpo, estranha química
Na mão, cartão de palavras
De 40 graus de Sylvia Plath:
“The sheets grow heavy
As a lecher’s kiss” (T4R).


Tempo. Diabo promove peão.
Outro tabuleiro de paralelepípedos
e taxi de Paracelso.


- O velho taxi, mais devagar.
Ele, mais triste que feliz.
No painel, a foto do pai.
Às vezes, mau farmacêutico
Manipulador, outras químico
Autodidata, acreditava sim
Nessas coisas transmutáveis.
Sonhou sempre com ouro,
Acabou se contentando
Com o brilho fácil do sonho,
Este outro ouro de tolo.
Por que não lembrar aqui
Daquela história de Peer Gynt,
Que descobriu tarde demais
Que poderia ter sido feliz
Se não tivesse sonhado?

- Paracelso também às vezes
Entre uma corrida e outra,
Via que o farol dessa frase
Surgia verde. E súbito parava.
Seta: ele jogaria sua vida
Também passando em branco
E se transformaria assim
Apenas para ver o vil metal.
Não valeria sua vida mais
Que o ferro-velho do poder?
Depois, por que essa obsessão
Ainda o perseguia por todas
As ruas da cidade? E por anos?

- Cena subjetiva: Paracelso
Ainda criança cedo aprendia
A composição química, teor
E validade, a tabela periódica
E tudo que era outro ouro,
Esse o lastro da sua infância.
Enquanto os outros garotos
Se divertiam, ele dançava.
Não é que não teve namorada,
Teve. Mas sem ela saber.

- Tudo é pessoal: sua mãe
Tinha saído de casa não à toa.
O pai, esta testa esgalhada
Não esqueceu nem nunca
Que perdoou. Pudera: perdeu
A vida pulso cor de mercúrio
Da noite para o outro dia?
Com mãe e mulher assim,
E até era Aída, como alguém
Vai acreditar mais nesse sexo
Tão natural para ser lasso?
Mãe, o contrário da pedra:
Midou a vida do velho nisso
E aquilo que às vezes adquire
Também a cor do ouro. E fede.

- O pai jamais foi o mesmo.
Secou a lágrima, a merda não.
Pior: o conceito foi adiante.
Passou de pai para filho
Feito umbigo. De outro jeito:
Via sentimento umbilical.
Coisa que une duas pessoas,
Sem nunca as transformar
Em uma só, unicamente.
No entanto, pode alimentar
Seu crescimento singular.
Ou, então, ir intoxicando
Dia a dia por anos e anos.

- Mulheres, o que falar delas?
As da rua transformavam
Os meninos em homens,
Já as putas de casa vertiam
Homens em homens mesmo:
Pessoas desconfiadas, duras,
Inefáveis e sempre mortais.
Química do homem: traído,
Não reage mais à vida.
Esta a cadeia da fórmula:
Sua mãe acertara seu pai,
Que acertara Paracelso, que
Estava pra acertar alguém mais.


Ponto do taxi. E pensamentos
que anoitecem.


- Há homens assim: sem lastro
Emocional. Mas Paracelso, ah,
Ele se considerava com valor.
Tanto que, até então, mulher
Alguma ousou pagar o preço.
Não passou de mão em mão,
Para ser trocado adiante.
Enquanto se perdia por esse
Labirinto de sentimentos
Era, como todo homem, rato.
Buscando sempre a saída.

- Mais dia e mais outro: sai
Do seu taxi, entra numa porta,
Fechando outras, sem deixar
Nome, digital, luz ou rasto.
Às vezes, um perfume no ar
Que se perde na memória,
Uma sombra que ainda ajuda
A criar outras, subjetivas.
Sim, sem sombra chinesa.
O taxi percorre pensamentos.
Paracelso, ruas. Ou vice-versa.


Taxi. Interior. E Paracelso
como livro.


- Depois de conferir a féria
Da manhã, Paracelso folheia
Agora as páginas, em ondas,
Daquele livro como dinheiro.
Sim: os metais têm substâncias
Diversas. E todos eles têm
Em si enxofre e mercúrio.
Conforme já se variavam
As proporções, assim obtiam
Ouro, prata, cobre e outros.
O que mais se teorizava:
Ouro era composto de alta
Porcentagem de mercúrio
E pequena parte de enxofre.

- Mil anos depois de Cristo,
Os alquimistas transformaram
Isso em outra moeda corrente:
Para haver transmutação
Era necessário um agente
Que então tinha muitos nomes:
Pedra filosofal, pó filosofal,
Grande elixir, quinta essência.
Acreditavam que a pedra
Ao tocar os metais líquidos
Os transformava em ouro.
Além: podia curar as doenças
E prolongar a vida: além.

- Os chineses, ah, eram outros
Que o ouro era para sempre
E, por isso, se absorvido
Todo pelo vivo corpo humano
Tornaria o homem imortal.
O processo, assim, divisão.
Do metal pequenas partículas.
Seu objetivo, um pó: poesia
De ouro. Que mito sopraria
Entre ventos e nuvens, sempre.

- Não era à toa que o velho
Fosse também quimérico,
Utópico até. Química demais
Virou quase tudo merda.
Mas com ele, outra história.
Tinha que ser, ainda que
Até agora fosse a mesma.


Fausta liga e marca encontro
com o detetive. Noite.


- Fausta: Antígona, Medéia, Hidra,
Hebe e agora Fedra. Por quê?
- Nigro: Sei de nada, sou apenas
O detetive nessa história.
- Fausta: Por isso: o primeiro
A saber. Quem é? O que quer?
- Nigro: Outro louco. Não quer.
- Fausta: Por que tanta ira
Em coração de pedra?
- Nigro: Pedra que não é
Filosofal. Nada transforma
- Fausta: Ouro, pano de fundo.
Ou será que somos nós?
- Nigro: Por trás de um crime
Há sempre uma mulher.
Mãe, irmã, aliança, amante
- Fausta: E o jogo de xadrez?
Quem joga com quem?


Olhos nos olhos. O detetive
tem uma teoria. Mas não sabe
se deve acreditar nela.


- Deus x Diabo, ou um só
Deles jogando contra si.
Forma de superar a solidão
Onipresente e onipotente
Nesse claro-escuro. Xadrez,
Vira-se o tabuleiro e pronto:
Deus tenta ser ainda mais
Que Deus. E o Diabo busca
O próprio Diabo interior.
Tão iguais que são energias
Que se anulam: homem fica só.
O jogo é de trocar peças:
Peão por peão, cavalo e torre
Por bispo, Hidra por Hebe
Empate: Deus preto de um lado,
E o Diabo branco, de outro.


Abatida, volta para casa.
Fausta cada vez mais frágil
e pronta para Isto.


- Mau tempo: Fausta chovia.
E de novo a metáfora das águas.
Na sua estação de cheias.
A última lágrima hidratou
Outras já secas, inaugurando
No olho esquerdo falso arco-íris.
Sol e soluço, queda livre
Do seio à planície do corpo
Com menstruações de rios.

- Agora sabia quem seria o pai
Mas não quem era o pai.
Isto para ela era tudo isso:
Alto, boa pinta, inteligente, rico
E o que mulher não abre mão
Para abrir então o corte: o riso.
Ainda que, às vezes, sério
Nos seus prólogos e ironias.
Mas sempre, na urina, Hegel
Platão, Kant e Nietzsche.
Que acreditasse mais nele
Que nesse Deus abstrato.
Que nada de papel oficial
E essa vida sempre reciclada.
Que ouvia Bach, Schuman,
Vivaldi, Wagner e Grieg.
Que, como Theodor Adorno
Idem, ibidem, desouvia jazz.
Que nem precisava escrever
Nem ter modos, nem na moda,
Nem saber ouvir, nem nada.
Tampouco alma, só pavio.
Nem tão intenso, sem fadiga.
Se, porém, e sempre aquela
Casa das máquinas. Ou águas.
Por que Isto era então motivo
Para disparar o sexto sentido?
(Fausta sabia de tudo Isto,
Menos que Isto era Mefisto).


Manhã, teste de gravidez.
Pensamentos placentários.


- Depois de Margarida, Isto.
Faria segredo ou contaria?
A tal seringa do amor ou
Da droga: alguns emeles
Invaginando o delta veloso
E pronto: a vida ameaçava
Onde o sêmen apodrece.


Bar. Interior. Noite.
Monólogo de Mefistófeles.
Ou bilhar de palavras.


- Reticências e mesa de bilhar...
Mefistófeles sim amava Fausta,
Que ainda desejava Margarida
Que idem gostava de Isto
Que, em pessoa, ele mesmo
Ou: só seu desejo não era
Simples diminutivo. Fazia
Aquilo e tudo mais por Fausta,
Até sujeitar todo o seu desejo
Ainda mais: ter filho ou filha.




Casa de Paracelso. Escada.
Interior. Noite.


- Paracelso sobe lento molusco
A velha escada em caracol
Com nove degraus. E nada
A ver com a Divina Comédia.
Apesar, que tão ampla sala
De móveis antimodernos,
Uma espécie de purgatório:
Consciência de ter consciência.
E isso Paracelso parecia ter.
Ou seria como quer o filósofo,
Talvez a má consciência?
Estacionou o corpo cansado
No sofá mais próximo, assim
Como quem usa um bilhete
Zona azul: por minutos. Dez.


Ponto de Taxi. Interior do
veículo. Jornal.


- Outra vítima do Alquimista
O delegado da 4ª DP checa
Importantes informações
Que podem ajudar a elucidar
O misterioso crime da mulher
Encontrada na represa Billings
Em São Paulo. A autópsia:
Corpo de jovem mulher, ruiva
Adiantado estado de putrefação,
Apresenta marcas de algemas
Nos pulsos e cordas de nylon
Nos tornozelos. No pescoço
Provável coleira de couro.
Marcas em arcos na uretra
E, como nas outras, filigrana
De ouro na sua genitália.


Paracelso dá partida no carro
e nas ideias. Av. Sumaré.


- O sexo em arco arcava
Com as mesmas marcas:
Espiral traçando por dentro,
As voltas e retortas da dor.
E outra filigrana de ouro
Que transformava tudo em si
E a história toda: teor.

- Paracelso e sua ideia fixa:
O sexo da mulher: a quinta-
Essência: a parte mais pura,
Sutil, delicada e destilada:
Agente por excelência, única
Transforma tudo e todos:
A pedra filosofal sim, simples.


Diálogo subjetivo de
Paracelso. Taxi. Interior.


- Paracelso: Filigrana de ouro
Ou outra experiência? Falha.
- Folha S. Paulo: Junto ao corpo
Um verso de Shakespeare
- Paracelso: Verso, que verso?
E eu lá gosto de poesia?
Outra mulher, só pode.
- Folha: Junto ao verso outra
Jogada de xadrez: P4R.
- Paracelso: Verso, xadrez,
Qual a jogada? Amnésia,
Dismnésia, Deus ou Diabo?
Alguém plantando pista
Ou alguém aqui pirando.
Em vez de ouro, outro eu?



Ponto de taxi. Paracelso
vê fotos, especialmente uma.


- Sexto sentido: só a química
Do amor, então sexo porvir.
Seria sim a pedra filosofal,
A poção mágica, na sua boca,
Entre sedas, virgem de batom
E dessa coisa que, entre outras,
Ousa ser. E de outro teor.
Só essa alquimia, entresseio,
Inseminando o corpo macio
Desteceria a trama, o amanhã
E a queda. Essa transformação.

- De um lado, pau e pedra.
De outro, sexo filosofal.
Obra em negro, afundado
Em delta, miasma e pernas.
Transforma homens, mida
Coração, cabeça: tudo muda
A gárgula do teu sujo sexo:
Ouro líquido banhando corpo
Que se afasta da aparência
Quando aproxima lábios.
E embebe a tarde, que arde.


Sé. Mefistófeles toma dose
de licor e pronto: vira Isto.


- Alma mesmo: só o corpo.
Ela mesma não tem graça.
Apenas divina, não dilata retinas
Nem veias nem sexos, a alma.
Não arrepia, não vaza, não voa
Pesada, apenas cria asas
Para ciscar quintais e estrelas.
Não mina água, só lágrimas
Nem que destila uísque raro.
Não extrai nem ira nem nada.
E nunca move o arco do riso.
Não pulsa nem repulsa.
Alma não cheira, mas fede
Numinosa: gases de Deus.


Do outro lado da cidade.
Alcíone acorda e recorda: lenço,
éter, taxi. Agora uma mosca no
nariz faz cócegas ao consciente.
Como foi parar nesse lugar ?


- Insana louça sanitária:
Alcíone seminua, sentada.
Suas mãos em cruz e algemas.
Os pés a ferros deitavam
Sapatos de salto-alto, preto.
À altura da cabeça, canudo
Por onde mal se alimenta.
Outro se instala hostil,
Em voltas, interior e uterino.
E do sexo volta então a sair
Alimentando um sistema
Tão básico como decantado
De alquimia alkahest.

- Tão veloz como Mercúrio
Por dentro da sonda, o rio
Por dentro de Alcione, vida
Que resistia. O mênstruo,
Mais uma tortura do sangue.
E, como outras, roubava
Da face todos os vermelhos
E explodia em delta, febre e cor
Entre as pernas, chão e vaso.
Secreta progesterona o ciclo.
Aqui a essência das essências
Da experiência, em curso.

- Homem, química de sombras.
Seu corpo tudo ou nada produz:
Sangue, suor, sêmen, urina,
Águas, lágrimas e pus.
Primeiro, o cérebro, a ideia
De ouro, sonho e brilho:
Verdadeira pedra filosofal.
Depois, o corpo: ouro em si
Que deve outro ouro criar
Só para atestar a falsidade
Afinal do próprio homem.

- E mais que homem, mulher.
Corpo em reação elétrica,
Ligando todas as águas.
Hora de ler a bíblia, a outra:
De trinta e um de março.
E, por isso, não menos cristã
Que outro Paracelso e tortura
Transmitia de outros porões:
O telefone: fio a fio elétrico
No lóbulo e seu indicador:
Sim: o corpo confessava.


Paracelso, Alcione e
caleidoscópio de sentidos:
a morte como um beijo.


- Dizia ou produzia: o corpo.
Nem por sonhos há alquimia
Num só. Paracelso, ímpar.
A sonda então se eletrifica,
Alcione bem que ia gritar:
O beijo amor/daça a boca.
O corpo abre outros lábios,
Mudos. O que é água é fogo.
A genitália agora se cauteriza.
Mãos, algemas e gemidos.
O coração dispara e para.
E na hidrelétrica dos olhos
Apenas uma lágrima, lúcida.


Não há ouro nem alquimia:
a experiência fracassa
mais uma vez. Noite adentro.


- O beijo álgido ainda na teia
Da saliva. A sonda bivalve
Transforma calor e mercúrio
Em estranho arco-íris apenas.
O tempo: gota se esgota
Na clepsidra de mulher.
Progesterona à míngua
O ouro vai assim se perdendo
Uma vez mais, sendo a liga
Entre outras ideias, frias.
Mesmo que uma boca a outra
Teime em transmitir ar
Viciado, calor. E sobrevida.


Detetive incorruptível.
Ele também quer ver o serial
killer no cu da prisão.


- Nigro: Há sempre outro crime
Por trás do crime. Sempre.
- Fausta: Que crime é pior
Que o próprio crime?
- Nigro: colar de mortes: Hidra,
Hebe, Filomela, Antígona,
Ariadne, Fedra. Qual o fio?
- Fausta: Ser mulher e ainda puta?
- Nigro: Mulher, simplesmente.
E todas no vermelho.
- Fausta: Mulher sempre essa
Mulher, menstruada ou não.

- Nigro: Há pele na vítima
E outra no assassino.
As duas, tecidos diferentes.
E igual também não sangram.
- Fausta: Uma para dentro
Outra para fora, vítima?
- Nigro: O sangue de dentro
É sim o sangue de fora...
- Fausta: Quer dizer: o sangue
Da vítima passa, por assim dizer,
Pelo coração do assassino?
- Nigro: E isso não é pouco.


Outra cerveja. Nigro já nem
sabe disfarçar o que sente
por Fausta. Mas não percebe.


- Nigro: A obra em preto:
A pele: a pelve. De todas
O progesterona extraído.
- Fausta: Obra em vermelho:
A mulher, sempre exemplo
E pele que sangra. Sagrado
Coração: Cristo é mulher.
- Nigro: Mago ou médico ou
Monstro. Para uns poucos
Essa substância é ouro.

- Fausta: O corpo transforma
Tudo em ouro sem, contudo,
Transformar ouro em nada.
As pessoas: cor de ouro, sim
Mas outro ouro: trigo uns
Que pensam outra vida
Depois da terra escura: joio
Outros: separados, excluídos:
Matam Deus. E comemoram.
- Nigro: Não: no húmus interior
Pensam Deus como trigo:
Pode, sei lá, apodrecer um dia
Mas germina noutro. Deus,
Ideia: que assim não morre.

- Fausta: A vida: a veia brinca
Tudo isso por hormônio
Por que ainda mais. Que ira.
- Nigro: Sanha: façanha
De um Anjo Exterminador:
Mata em nome de Deus
Que, você sabe, também não é
Nenhum santo nem nada.
Ou, então, mata em seu nome:
Outro Deus: profissional.
- Fausta: Outro que não gosta
De mulher, de nenhuma
Que conheço. E eu me conheço.


Fausta sai e deixa um beijo.
Nigro fica com seu corpo cada vez
menor, nos olhos. Noite.


- O amor mida as pessoas.
Opus nigrum: ruptura,
Dissolução, dança e caos.
Obra em branco: pureza,
Manhã, coração lúcido.
Obra em vermelho: espírito
E sentido, juntos. Sangue
E vida, mulher e veia.
A grande obra: a busca
De si mesmo, teor 99.99.
Essa a pedra filosofal.
Para outros, Deus. A pedra.


Para Fausta antes de Nigro
vinha Isto. Sim, era ela agora
que se transformava.


- Amor, outra estação:
Cortes de Fausta, primaveras.
Ela mesma talvez não mais
Mesmo voltando inteira.
Braços de rosas, lábios
Outros em outros lábios.
Alma outra Margarida, sempre
A mesma como essência.
Muros de heras, desenhos
Retos, tão superficiais:
Não, não há primaveras
Ou mulheres sem cortes.

- Pensa: estrelas negras: mãos
No seu corpo quase albino.
Margarida, o melhor país.
Ou: na mesma Alemanha
Outra Floresta Negra:
Nem ostra nem se mostra.
Que mais? Inês é morta.
Margarida sim, a tal mancha
Dálmata, pena de caneta
No branco Schoeller do papel
E mais outra tinta no chão.


Não mais Anjo Azul, Isto
sempre. Na varanda, o vento
lê algumas páginas do livro.


- Nietzsche: ver sofrer alegra.
Fazer sofrer alegra mais ainda.
- Fausta: os palcos, individuais
As teias nem tanto. Nada.
- Nietzsche: em todas as religiões
Positivas, o nada tem nome: Deus
- Fausta: um corpo negativo,
Promessa de felicidade.
- Nietzsche: Stendhal tem razão.
Kant, razão pura. Shopenhauer
Já viveu sem essa razão:
Mulher astuta, segundo Lutero.

- Amor, quase esse limite
Da pele de dentro e de fora.
Um blefe, novas fronteiras.
Desviar águas sim, cuspir
Palavras, sujar sesmarias.
Amor é quase vingança
Ou, antes, uma espera: a ira.
Sexo, o seu instrumento
Onde o sangue é branco.
E se então muda de dono,
Faz na hora duas vítimas.


São Paulo brumário.
Fausta vê três bruxas. Uma
revelação. Noite.


- Três bruxas de Macbeth
E uma mãe de santo preta.
A água fétida, o porvir ainda
Mais, os búzios caíam
Como sentimentos e orixás.
Estrelas iriam brilhar pedras
Ou lágrimas em pele negra:
Outros diamantes, Margarida?
E, assim, tudo teria sem ter:
Lua de mel, filho e ilha.

- Bruxas rústicas de outra
Cultura. E simples oratórios.
Na Alemanha, cada um
Um país dividido, ainda dois.
Aqui, cada estado um.
Mas jeca em todas as roças
E peles do pensamento.
Seio como bola de cristal,
Duas mãos no corta-luz:
Futuro qual pele ingênua
Carícia da luz no carvão,
Nas densas minas de dentro.

- Na terceira, entre banhos
De pipoca, certa poesia.
E entre lábios, afinal faca:
Fausta era nascida apenas
De mulher sem homem.
Quem acredita nessa boca
Como bateia de pedras?
Sem luz: só a dor rima.
As palavras, porém lavras,
Sempre se disseminaram,
Negras, como girinos.

- O pai, se pai, só de nome.
Menina sem o arco do abraço
E esse arcaico sentimento
Que envolve toda a força.
Apenas sua poesia media
Já tarde os dias, adultos.
Depois, uma mulher precisa
Mais de outra mulher, não?
Nada como a curva do lábio
Da mãe. E outros arcos.
O homem é sempre um píer
Nunca ponte, incompleto.


Periferia e noite igualmente
brumária. Nigro descobre
e prende o serial-killer.


- Olhos de tocaia: o claro-escuro,
As sombras chinesas, a casa.
Nigro é engolido pela noite,
Pelo jardim, corredor e porta.
Do outro lado, pouca luz:
Paracelso é a coincidência
De todas as cores da amnésia
Num só branco, a vida.
Há crime sem a memória
Do crime? Ou outro crime?
Ele nem bateu a cabeça,
Que Deus não batia bem?

- Paracelso: Deus: serial-killer.
- Nigro: Serial-killer, Deus?
Que ouro você quer agora
Transformar em outro?
- Paracelso: Verdade outro ouro.
- Nigro: Não há outra verdade.
Ou ainda há outra verdade
Se a verdade não é verdade.
- Paracelso: Cada homem
Uma pedra filosofal. Muda
Porque já se transforma.
- Nigro: De novo a verdade.
Que outra luz em outra
Pedra facetada: mulher sim.
Ou um simples diamante.
- Paracelso: A mulher muda
Em mim. Em tudo. E nada.
- Nigro: Nove, dez mulheres
Mortas, amigas e putas.
E por que nada ainda coincide?
- Paracelso: E mulheres, milhares
Que Deus anulou, não conta?
Quantas em silêncio, tantas
Caladas e ou silenciadas?
Pela voz do Homem ou mais:
Pela mão do próprio filho.
Também por bulas papais.
E fetos e clitóris cortados.
Tão espedaçadas em malas
Ou em si sempre extraviadas.
Umas irmãs, loucas e madres
Guardando vaginas de alho
E ideias fechadas, podres.
Outras nas igrejas internas
E mais ainda liquidadas:
A fé fede, o sexo estraga.
Judiadas por um outro Deus
Em camas e câmaras de gás.
Tantas em holocaustos,
Cruzes e Guerras Santas.
Que duro Deus toma corpo
E pensa com um Führer.
Que mata de fome lenta
Nas ruas e subúrbios.
Que se diverte com elas
Nas alas da Santa Casa.
Que seca pele e sonhos
Porque antes secou a lágrima.
Odaliscas que são olhos
Sempre que são só marcas.
Mulheres que já morrem
Sem antes morrer: de luto.
Ou nem mulheres ainda:
Meninas de sete, oito anos
Estupradas: ele foi o voyer:
Está em toda parte, lá.


Paracelso confessa.
Longe dali, Mefistófeles ele
mesmo, levanta o olhar para a
cadeira à frente e propõe empate.
Deus aceita sem pensar.


- Nigro: Para Stálin, milhares
São apenas estatísticas.
Dez ainda são tragédias.
- Paracelso: Deus sempre ileso.
Velho, ainda assim mata.
- Nigro: Confessa: você falhou
Na fé que transforma. Mais:
No ouro que não transformou.
- Paracelso: Deus: Dr. Morte
Corta fundo, fez a mulher
Desejar até o próprio fim.
Quando vai a eutanásia,
Ao contrário, sacrificar Deus?
- Nigro: Ao contrário, você
Que vai querer antes a sua.
Depois de morrer muitas vezes.
Prisão é naufrágio lento.


Fausta e Isto: amor acontece.
Dia e noite.


- Fausta desblusa os seios
Que a luz lenta acaricia.
Mamilos espetam o ar
E os olhos de Isto, alvos.
Pernas perdem preta pele:
Mãos tecem outras meias,
Desfiam o azul-calcinha
E, rápido, se enredam no tear
De outras águas e ventos.
Há o toque e a eletricidade.
Também a posse e possuídos.
Uma boca beija os lábios
Onde as pernas se encontram.
A outra, de batom, sela
A boca pisciniana do sexo.
Cada gota troca de dono
Umectando o olhar. Porém,
O amor tem mais que pressa:
Licença de ser mal feito.
Pênis-coração pequeno
Pulsa violento, vermelho.
Expectora mel branco
Que outro coração, no peito,
Distribui como sangue.
E só porque bate mais forte
A mulher acha que é amor.

- Spinoza: Enquanto houver
Homens haverá vícios.
- Fausta: E haverá manhãs
Enquanto o sol teimar.
Pelos olhos, a fotossíntese.
Braços, pernas, galhos, mãos
Como raízes no corpo
Do homem, húmus de mulher.
- Isto: Acordo e o que vejo?
Outro homem no meu lugar.
- Fausta: Spinoza nunca será
O outro, não na cama.
- Isto: Deixa o livro, Fausta.
E esse outro Cristo pra depois.

Pensa: o sol nasce em mim:
Põe querer no que nunca fiz
Há mais de dois mil anos:
Amar. De dia. Sentir apenas
O que só a noite permitia.

- Rosa das águas-vivas, sexo
Rosa, lábios buscando outros
Lábios, tímidos e túmidos.
Algum norte, simples sentido.
Mulher, cata-vento íntimo
Esse em todas as direções.
Fincado em mão de moleque
(Hoje mais menino: homem
Em sua pele de menino).
Nessas oficinas de vento
Entre pernas, entre elas.

- Amar de novo: não é amar
Igual: o corpo reconhece
O caminho: folhas, fetos,
Pedras, atalhos, detalhes.
Vai que acrescenta outro,
Esmiúça as mil minúcias
Mas o mesmo corpo será outro
Com os mesmos rios dentro.
Se é possível aqui filosofia
E sexo, as águas heráclitas
São, entre eles, outro volume.

- Mãos afundam estrelas
Nas brancas nádegas de Fausta.
O amor, porém, para presto
Uis e ais e mais stacatto.
Amar de novo: o corpo
De novo aprende a morrer.
O fim da manhã assim como
Um beijo quase sem-fim,
Ou já um fim em si mesmo.
Fim: lábios-labirintos:
Voltar a amar é ter a linha.

- Coração-caroço e espera,
Mais no centro da carne.
No meio de tudo, duro.
Fausta manhã maçã ao meio:
Sexo entre lençóis alvos,
Os pensamentos, nem tanto.
Não, não vendeu a alma
Mas o corpo. Ainda fiel
A si mesmo. Mas como outras
Tantas mulheres tentadas.
Primeiro, pensou que seria
O amor-próprio a outra pele,
Como um jontex moral.
Dos homens e das noites,
Das sombras e seus vazios.
Depois, foi identificando
Digitais e mais digitais,
Umas superpostas às outras,
Traçando quais contornos
Num corpo mais denso:
Fausta frágil a cada dia.
Cada vez mais que a ideia
De preservativo apenas
Uma ideia, pegada à carne,
Mais podia sentir os homens.


Isto dorme a seu lado.
Fausta ouve mais que Vivaldi
nos fones-de-ouvido.


- Concerto for strings and
Harpsichord, in G Major. Presto.
Tão crítica como Dallapiccola,
Que dizia que Vivaldi não
Escreveu 450 concertos, mas
Um conserto 450 vezes?
Tão intuitiva: teria dado
A 36 homens, ou dado 36 vezes
Ao mesmo e único homem?
Podiam ser os homens tão
Iguais em diferentes peles?

- Concerto for Violin and
Orchestra, in G Major. Allegro.
E Fausta começou a achar
Que não eram tão iguais assim
(Os concertos, pelo menos).
Ainda que lúcidos demais,
Mal resolvidos, divertidos.
Até ela, Margarida, apagara
Do seu céu. Sua via láctea
De sinapses, falando baixinho
Entre si, piscava já outro
Código. Para outro homem.


Sem música. Mas ainda
pensamentos iguais sobre homens
iguais. E sobre Isto.


- Caroço, o código da fruta
O falso DNA da mordida.
Isto e não aquilo o homem.
Ou o último do Anjo Azul
A pagar pelo seu corpo.
Ou, então, quem unia de todos
Os outros homens só virtudes.
Sabia das águas e segredos,
Do coração e subterrâneos.
Parecia bem sensível, ético,
Ainda que rico, a cem metros
De profundidade: sondas,
Metrô, túneis, empresas.
Ou, como o próprio Isto bem
Humorava: a poucos metros
Do Inferno, um império.

- Quando homens se abraçam
Às mulheres, pelourinhos.
(Em baixo-relevo as causas
E todas inscrições de amor).
E Isto não era tão diferente.
O que ela tem mesmo a perder
Além do ido, sentido e perdido?
Os homens, ah, eles ficam
Como manchas no lençol.
Margarida era um Artaud: lúcida
Louca, porém nula e presa.
As amigas putas, mortas. E ela?
Antígona, Mérope, Hebe,
Eurípedes, Hidra, Fedra: Ainda
Mais só e Fausta, frágil de vez.
E assim mais humana. Mortes:
Moscas ou elétrons à sua volta.
O que fede? Que vida ou lixo?
Adianta, então, espantar
O que sempre volta a insistir?
Casar logo com Isto. E pronto.


Manhã do outro dia. Fausta
já em casa pensa em fazer as
malas. O amor, passaporte.


- Cão, o dia levanta a perna
Num poste de luz. E sombra.
O passaporte: na alfândega
Do quarto para o país da rua.
A mala cinza ainda ao centro
Sobre a cama, pesada nuvem.
Fausta ajusta uma calcinha
Ao corpo e guarda as demais.
Até a meia no chão desenha
O pé país destino: Itália.
Casar é, sim, fazer escalas.


Por seu lado, Isto já
comemora o corpo e alma
do contrato. Em Roma, a
assinatura. Amanhã.


- Do outro lado da cidade,
A seus pés, Isto é Mefistófeles
Para si mesmo. Finalmente
Feliz de um ato falho e fausto.
Na sua mala outras mudas:
A camisa-de-força usada
Por Margarida não, não mais
Ocupa os olhos de Fausta.
A venda de Paracelso: tão
Dilúcida que não deixa ver
Atos e fios que separavam
Impurezas do outro lastro,
Prostitutas do que é Fausta.
(Sem amigas e outras forças,
A força feminina dobrada).
E o melhor: Fausta apaixonada.
Nada mais que Isto queria,
E mais que Deus podia esperar.

- Faltava o contrato apenas
Ou quase nada faltava. Deus
Podia perdoar subfausta usura,
Ira, inveja, vaidade, gula,
Mas Fausta ousar ser feliz não.
O Velho não podia consentir
O que nem a si nunca permitiu.
Fausta casaria e seria assim
Como todas as mulheres:
Por menos ou mais tempo
Uma esperança deitada, apenas.

- Pensa Isto: apenas uma gota
De sangue no papel. Uma só
Na principal empresa de Deus
E o poder mudará de mãos.
Não mais essa pobreza
E ditadura de uma só alma.
Corpo e visto de entrada
Para um outro país e pele.
Ali, bem ao lado das alianças,
Do fraque e do black-tie.
E da calcinha usada de Fausta.

- Ela: nasceu na Alemanha
Mas de lábios líbios, róseos.
Libidinosos gomos de laranja
E ainda assim mais afastados
Da voz cava e sotolábio.

A moeda de Mefistófeles:
Margarida de um lado e longe.
E Fausta de outro, perto
Do seu ponto mais humano.
Ele, príncipe do mal, dividia
Para conquistar. Ela, Fausta.


Fausta aproveita a tarde
para fazer algumas compras
e falar com Nigro.


- Fausta: Filigrana de ouro
Na genitália. Que história?
- Nigro: Alquimista às avessas.
Em vez de transformar,
Ele que era transformado.
- Fausta: Quer dizer: o corpo
Da mulher, pedra filosofal?
- Nigro: Mais ou menos homem
Conforme mais ou menos
Mulher. Na sua pele, teor.
- Fausta: Sexo filosofal:
O mercúrio: o sangue: ouro
Líquido. Uma mulher é mais:
Não cabe no corpo. Não.
No peito outra grande pedra
Gota pulsando, desarmando
Combinações, metais, mais:
Transformando homens.
- Nigro: Belifausta teoria
Do conhecimento. Mulher
Ainda é mais: outra pedra,
O próprio cérebro evolui
O que no homem não muda:
Precipício e glande, coração.

- Lá fora, o vento mal esculpe
Nuvens brancas fugidias.
O pensamento outro cinzel.
Ela vai mesmo viver com Isto
E, sei lá, nada mais a fazer
Nessa corrida dos homens,
Como girinos brancos, havia
Há muito ficado para trás.
E agora ali, negro Nigro
Media a perda com os olhos.
Ingênuos, ainda tentavam
Atrair o que não era mais ímã.
Pior: ainda receber convite
Para ser padrinho. Como aceitar?


Aeroporto. Fausta e Isto
de malas e mãos dadas. Viagem.


- Fausta: Meu colar de perdas:
Hidra, Hebe, Mérope, Fedra,
Filomela, Antígona, Ariadne,
Eurídice. E o que dói a fio:
Margarida, amor e amiga.
- Isto: Outro colar agora Fausta
Pérolas do porvir e raros
Momentos românicos, pedras.
- Fausta: Por que lá, Isto?
Ainda mais na Capela Sistina?
- Isto: Um dia, você saberá,
Fausta. Cadê o passaporte?


Algumas horas depois. Fausta
Isto na Pça San Marcos. Dia, noite.


- Se o Espírito Santo voava
Aqui ali e se empoleirava, sujo,
Como pombas nos bancos,
Em estátuas e galhos de ar
Até aquele momento, súbito
A Piazza de San Marco foi
Expulsando a paz, uma a uma.
E, rápido, tomada por outras
Asas, negras: mais e nunca
Mais centúrias de corvos.
Uns em pentagramas de fios,
Mudos, num súbito stacatto.
Outros, em círculos suspeitos
E outros mais ciscando apenas
O fim da tarde antecipada.

- No outra cidade de Dante,
Fausta era a Beatriz para Isto:
Ecce deus fortier me qui
Veniens dominabitus mihi.
Ideal, real, fonte do poder
E origem da maçã e do mal.
Duas Beatrices em Fausta.
E uma só gota de sangue
Iria em breve assinar outra
História à frente, por séculos.


Dia do casamento: eclipse.
Uma Mercedes negra leva o casal
para o Vaticano. Dia, noite.


- A Mercedes preta come
Rapidamente ruas de talharim
E, como ímã, vai atraindo
De todas as ruas afluentes,
Dez dezenas de motos pretas.
Que, lentas, acompanham
Como batedores, o carro do casal.
Como que, na rua esticando
O preto vestido da noiva.

- A poucos metros do Vaticano
E a um só minuto do eclipse,
A Mercedes negra diminui
De marcha. E, nupcial, se dirige
Como noiva, para a porta
Principal da Santa Igreja.
O sol ainda abre parêntesis
Para esse veículo estacionar,
Refletindo a última unha de luz.
Antes, no vidro negro da porta.
Depois, sobre os óculos-escuros
Do ímpio e altivo noivo, Isto.


Capela Sistina: Isto agradece
em pensamento ao Velho por esse
presente de casamento.


- Piamente, ímpio. Isto é,
Piamente em si e para si.
Escada e poder upgrade:
Contemplação e conquista
Ainda que por breve hora.
De: Príncipe, Para: Rei
O Senhor da outra Energia
Que sempre o mal pretende
Mas que o bem sempre cria.
Vaticano: o prêmio vaticinado,
O primeiro presente do Pai
Para sua empresa pessoal.
E o segundo logo no laço:
Surpresa na caixa de Pandora.


Vestido branco de Fausta
e Capela Sistina. Este outro
casamento, à parte.


- O maestro persigna o ar:
Breve silêncio disciplinado.
Agora, a Marcha Nupcial,
Lamento de Ingrid, Amanhecer
E o Retorno de Peer Gynt
De Grieg é passo a passo.
Ela vai dividindo a orquestra
Já dividida pelo tapete, em duas.
Pode-se dizer: se não é o casal
A felice orquestra tocaria
Era mesmo para si. Andante.



Fausta vê o céu da capela.
Silêncio da orquestra.


- Capela Sistina, Dia Seis, Sexta:
Pari passo, a história se repete
Quadro a quadro. E o dedo a dedo
De Michelangelo outro toque:
Aliança como Roda da Fortuna.
Ou princípio unido ao fim,
Ícone de dedos como víboras
De um par ímpar, díspar.
Ao passo de Fausta, outro quadro
Como olho de mosca pintado
E voando nesse falso céu.
A retina de novo se precipita
Como que seguindo parábolas
De saliva do artista, ao chão.


Fausta tem a passarela
à frente. E Isto no seu fim.
Para onde fugir agora?


- Tão Peer Gynt como Fausta:
Herdou da mãe a mania
De sonhar de olhos abertos.
E agora, igual, na passadeira.
Nesse Capistrano corredor,
Também ela se estreita
Em pensamentos, bemóis.
Mas o allegretto pastorale
Dá o seu tom: mi maior
E em sustenido ela levanta
Como o sol de todo dia
E brilha, mesmo em eclipse.


O fim parece próximo
e Fausta dá o primeiro passo.
Em direção ao altar.


- Sonho de um: apenas sonho.
Peer Gynt precisou ida e vida
Para sonhar também o lado par.
Isso, porém, nem por sonhos
Passa na cabeça de Fausta.
Negócio de juntar moedas?
Elas sim que nos gastam.
Um lado: a moeda valoriza
Tudo o que é ser. O outro
Deixa de lado o ser capital.
Por isso, igual moeda: passamos
De mão em mão. O patrimônio,
Falso sonho: o nosso lastro.


Púlpito e sacerdote em negro.
Fausta assina. Vivace.


- O padre em preto: outro papa
Como lagarta engalanada.
Iguana de seda em pessoa
Desrezando Ave-Marias.
Nos metais, a Canção de Solveig
E a auto-estima executada.
O poder é só dizer sim. Sim
E Fausta assina em baixo.
Sem um pingo de dúvida,
Só com uma gota de sangue.


Chalé. Interior. Em plena lua-de-mel
Fausta faz uma revelação e
descobre outra: a lacrima esquerda
de Isto: ou Mefistófeles.


- Por infausta sorte que Fausta
Descobriu que Isto não era
Isto, porque mais que Isto.
Aquele dia que ela, grávida
De novidade, falou: filho.
Também nesse grávido
Instante até ele se emocionou
E do olho, a prima lágrima.
Por todos os séculos e séculos.
Gota d’água salgada e benta
Que paralisou Mefistófeles
Por um segundo luz. Água
Que fez um rio no rosto
Procurando já a sua queda.
E aconteceu: por um átimo
Que Isto voltou a ser simples,
Como simples ser humano.

- Só uma lágrima, esse poder
Que o próprio nem sabia,
Mostrou à ímpia Fausta
Naquele frame a outra face:
Isto na pele de Mefisto.
E no longo segundo, o mal
Foi sucessivamente tomado
Por outras trinta e seis caras,
Máscaras que usou Mefisto
Para possuir Fausta dia a dia
Como mulher, Helena e puta.
E o que até era sentimento
Virou pentimento: seu sangue
Seria a tinta, desenho vivo
Sobre natureza morta e Isto.
Enganada, Fausta perfeita:
Como qualquer outra mulher
Até de Mefisto faria o diabo.


Tempos depois em São Paulo.
Fausta prepara a vingança
com a dilúcida matéria do feto.
Pia da cozinha. Noite.


- Fausta como Lady Macbeth:
Sonâmbula mão aberta
Que lava outra, estrela suja.
Depois do sangue, antes
Do crucifeto. E da gilete.
E da pia de aço um vestígio
Borrifa ladrilhos brancos
Faz uns porcos desenhos
Ligando seus cortes e pontos.
O amor não define você
Se ainda não mata você.

- Como Lady Macbeth, Fausta:
Sonâmbula mão abraçada
A qual punhal sem força.
Teimava abrir veias devagar,
Mas a dor tinha pressa.
Como o amor mal feito
De todos os homens. Todos.
E desses seus outros punhais
De tanto sêmen e glicose,
Que só funcionam amargos.
Perdera um coração dentre
As pernas. O outro, não:
Batia no peito dos homens,
Que comprimiam seus seios
Para estreitar distâncias.

- A vida, caixa de Pandora:
Força é levantar a tampa,
Ver o conteúdo do conteúdo
E mostrar ainda surpresa
Quando não há mais surpresa
Ao abrir outra caixa, vazia.
E nada além de outra caixa
E outra metáfora do vazio.
Corpo vazio sem outro corpo
Outra casa vazia: pó e teias
Sexos vazios como garrafas
Vazias, de água e sentido.
Uma pequena cruz vazia,
Sem o mito, ocupa cu ateu.
Olhos abertos, vazios sonhos.
Fechados, vazios de luz.
Vazio, nada ocupa o vazio.
A vida, quase faltando, vazia.
Medida em copos, de vidro
Em fatias, de frios. E gramas,
De pão. Em gotas, de sangue.
E em colherinhas, de açúcar.

- Sexo de Pandora, outra caixa.
Um feto pode ser tudo isso:
Filho do Pai, do céu inverso,
Convexo, fundo, céu de baixo.
Alfinetar o feto como um rito
Na alva placenta da tarde.
Atingir talvez a alma de Mefisto,
Ou então alimentar os gatos.
Aproveitar e pôr sal ao sol.
Ou, simplesmente, embrulhar
Sebo ou rebotalho em jornal.
E no lixo deitar o coração.

- Pandora, caixa de lábios
Larápios, fino espelho d’água
Onde o olho Narciso-narcótico
E o edifício de mais lábios.
Mal pensado e acabado,
O homem se vê na mulher.
Que, de fora, ainda é interior
E seu corte, lábios de navalha.
Comédia cega de erros:
Todo homem começa onde
A mulher acaba em rosa.


O filho de Isto ou Mefistófeles
saiu do corpo. A ideia de Deus,
outro aborto. Noite.


- Girassol de mãos, os dedos
Como pétalas, entrelaçados.
Fausta, sem acreditar, reza.
Ou, então, reza para acreditar.
Olhos: outros girassóis
Fechados, gravitam ainda
Em torno da luz própria.
Que se percebe não em si,
Mas porque há sombras.
Acreditar em alguma coisa,
Algum Deus invisível, ácaro,
Aranha tecendo manhãs,
Lagarta entre rimas de fetos
Ou isso: Deus é pensamento
Do pensamento? Vírus assim,
Infectando todo o sistema,
Deleta sinapses e o resto?
Pequenas ideias que trabalham
E ora precisam desse mel.
Um Deus qualquer, há sim
Apenas pelo simples fato
De outra sombra projetar.
Na mesa, a partir dos dedos
Já não mais em girassol.
Agora como louva-deuses.

- Nenhuma mulher é mulher
Sem antes ser homem.
E Fausta quase uma dor,
Ou ainda mais de quase ser.
O feto crescia como culpa
Entre sinapses, entre lábios,
Sangue e cortes mal feitos.
Que outra mulher a possuiu?
Mesmo sem dizer palavra
Como não ter mais lábios,
Decifrar o código da íris,
E o Morse desse músculo,
Que antes inundou tudo?

- Dias se formavam no ventre
E mente, o tempo gravitava.
Isto não se deu ao trabalho
De explicar, nem ela de ouvir.
Fausta queria é ferir o pai
Com o filho, que foi em pote
(Como em ventre de vidro)
Para dar luz à outra lágrima
Do pobre-diabo Mefisto.
Que tão logo se precipitou
Dentro do vidro de conserva,
Onde o feto branco jazia
Também na cruz espetado,
Banhado em benta água.
Assim: como o filho de Deus
O filho do Diabo foi antes.


Mefistófeles abre a caixa,
mas não precisa abrir a tampa
do vidro: o feto bóia no interior.


- O filho, feto alfinetado
Vodu de placenta, braços
Como asas, crucipernas.
Lagarta de dentro a ocupar
O vazio de fora, feto fétido
Que imagina asa e falo.
O sal da ira: tripa ou cordão
Umbilical que nunca se corta
Mesmo envenenando filhos.
Tanta química e pus e bile
E o mal ainda era ele.
Falar o quê de Fausta? Pele
Roupa de fora dos homens,
Experimentada e trocada.
Entre pernas, entretanto
Hoje, uma cicatriz que ri.

- O feto fixa cruciolhos e
Feito faca fere Mefistófeles:
Só o que é feito do Mal
Pode um dia ferir o Mal.
Veneno fora de si destila
Saudável o outro por dentro.
Cada alfinete da dúvida
Doía igual pensamento.
Em Fausta e Mefistófeles
O arco-íris, a branca trégua.
A vingança: farol à distância.
De perto, quase escuridão.

- O pequeno feto à gilete,
Em outra órbita e gravidade:
Vaga forma de astronauta
Perdido em seu espaço.
Sempre um e sem sombra,
Onde espraiado em águas.
Mas agora caído em sua
Própria luz suja, anjo.
Lactibranca carne do filho
E mãos: tudo o que se toca
Se transforma em outro.


Mefistófeles perde os
sentidos: cai, bate a cabeça
e nunca mais vai voltar
a ser o mesmo.


- Até ele, Mefistófeles,
Caiu na própria sombra.
Como um homem qualquer
E nenhum outro antes.
As palavras tecem aranhas.
A sombra, vãos. Habita
Cantos, vestindo a outra
Pele de fora, lá dentro.
Diminutos minutos depois
Ele acordou e já a sombra
Mal se esfregava na pele.

- Dinastia de pensamentos:
Primeiro uma lágrima, prima.
Por que depois esse sal?
Seria o Diabo menos Diabo
E Deus, então, mais Deus?
Porque nem nunca deixou
Escapar qualquer lágrima.
A outra sombra, da dúvida,
Possuía então outra pele:
Pensamento de pensamento.
E Mefistófeles sentia então
Que mudava sim a cada dia.


- Homem de pé: um sinal
De menos: sexo à frente, reto
À busca da boca e lábio-lírio.
Então, um longo vazio depois
Para dentro e centro do vazio.
O homem é uma mulher
Em seu corpo de homem.
Como ter outra explicação
Para esse corte ou dor,
Esta senha que nos abre?


Fausta no seu canto: aranha
que possui já possuída.


- Diário de Fausta, palavras
De Goethe: no fim tão sempre
Dependemos das criaturas
Que criamos. Esta biografia:
A dor sempre nos define.
Depois de possuir, talvez
Possuídos. De odiar, odiados.
Outro cordão umbilical,
Outra sede: nossa vez
Agora de ser filho do filho.

-Ter algo em algum canto.
Por um lado é ver o fio
E não mais a vertigem.
É ter que fazer sentido
Apenas nisso: na espera.
Por outro, outro senso
Do centro para a periferia.
Outra queda: a teia é que tem
Quem pensa ter algo.
Além disso: beijo e baba,
Esse abraço e entropia.


Anjo em off: revelação.
Mefistófeles: o verdadeiro
pai de Fausta.


- O que faltava: filha de Isto
Isto é, de Mefistófeles.
Melhor, trinta e seis diabos.
Nem Deus, só ela sabe.
O branco sangue no céu
Da boca. E outra boca
Onde Fausta é corte e rosa
E mais linda e loira e lassa.
Talvez somente a moral livre
E o corpo nu sem culpa.
Como pressentir a história
Com o mesmo DNA e alma?


Anjo ainda em off.
Dente de leite, umbigo seco:
DNA emocional.


- Meio dia ou meia-noite
O eclipse escondia a placenta
Do dia. O sol atrás da lua,
O ser atrás dos sonhos,
E atrás da filha, outro pai.
Fausta nasceu como nascem
Todas as mulheres: suja.
Em véus de pele, urina,
Fezes. E de gritos, secos.
Ainda sem a tal lágrima.
E mais: eternamente jovem
E bela, após os dezoito.

- Cordão umbilical cortado,
Perdido e até enterrado
Ao pé da roseira branca.
Porém, o fio sobreviveria
A terra, ao cheiro e gatos.
Anos depois, ainda existia
Através dele, outro veneno
Transmitido dia após dia
E que Fausta alimentava.
Não o corpo, os sonhos.
Para entender: fora do ventre,
Outro ventre e outra ligação,
Invisível. O tal cordão, sim,
Para todos os efeitos, existia.


Suicídio da mãe. Como odiar
ainda mais Mefistófeles?


- Se Deus mata os filhos
Aos trinta e seis, ela pensa:
Outro pai: outro lado: sestro
Semântico sêmen de satã.
Ela outros cem anos viveria
Aparentando dezoito.
Esse era o DNA do Anjo
Ao contrário do outro pai.
Por que mãe, a água benta
Se para evitar outras águas
Isso: usar preservativo.
Ou então, Deus como casca?

- Diabo assim: da refausta dor
Não sabe a foz e a fonte
E desse hierógrafo vivo
Se não tem outra tradução.
Apenas que ela é Norte
Da imantada agulha, láctea,
Tensa, dentre as pernas.
Mais, não há outro poder:
A mesma semente original.
E que o Diabo, sem saber,
Secreta. E que depois, fêmea,
Seduz o próprio Diabo.


Hamburgo. Anexo da capela.
Interior. Velório.


- Mãe de Fausta: já sem vida
Com dívida, como todos,
Seringa hipodérmica, cruz
Em viés no veio da veia
Alguns emeles de água benta,
Outros mais de contradição.
Para a junta médica: câncer.
Para ela, Diabo no corpo.
Foi assim o batismo, o rito
De passagem, exorcismo.
E o dia do corpo de baile:
O can-can do câncer, mal
Mamando primeiro o seio
Do lado do coração. Depois,
Pulsando na pele e pulmão.
Sem dúvida: vida era ida
Sem volta. Via sem saída.
Das mil mortes, mil vidas: o dia
Do Diabo tem sobrevida.


Aqui em São Paulo. A outra
personalidade de Mefistófeles:
cada vez mais Cristo. Ou
mais que Cristo.


- O Diabo é outro Diabo
Em corpo do mesmo Diabo,
O espelho não guardava
Outro Mefistófeles. Que pele,
Ou crisálida, ou então asa?
Sim: a barba foi crescendo,
Ideias também mais cristãs.
Puxava a memória pela mão
E lá vinham profecias.
Fechava os olhos para dentro
E dava sonhos aos cegos.
E descia a seus inferos
Para andar sobre as águas.
Ou outra fé superficial.
Era sombra pegada à pele,
Não adiantava lúcida luz.
Mefistófeles era outro deus,
Que agora queria o bem
Porém, seria outra energia.

- Homens e fetos se abraçam
Ou na noite se estreitam.
Polvos de mãos em nalgas,
Ave das águas entre dedos.
Músculo que mancha tudo:
Sangue, de um e de outro
E do que mais é comum.
Holístico, como então separar
Esses dois? O esperma toma
E cola o que sempre foi uno.
Mefistófeles e Jesus Cristo:
Cada um por dentro de outro.

- A sombra era sua alma
De fora. E não adiantava
Mefistófeles descascar a pele
Como biografias ao sol.
Porque outra sombra já nasce
Na pele por baixo da pele.
Pele que impele: sua mão
A desvelar ainda mais pele
E a descobrir outra mais.
Assim: Mefistófeles ganhava
Novo ser e perdia outro.

- Mefistófeles não era mais
Mefistófeles, era Cristo mais
Que Cristo. Sabia da dor
Nas curvas fêmeas do ser
E no homem, a fé da febre
De também possuir possuído.
Depois de Cristo: Idade Média
Da sua memória para trás.
Fé como cupim rói a cruz
E a própria memória da cruz.

- Pano de fundo: malhação
De Judas num poste da Light.
Mas algo cruciacontecia,
Então, nessa tal hora e horda:
Ecce Homo ali na Praça da Sé
Feito Padim Ciço e profeta.
Os homens como moscas
Tão espantadas, voltavam
Para as mesmas palavras.
Se iam, revoltavam. Sempre.
Até se juntarem de novo
Na fé e cega ambrosia.
(Entretanto, sua voz cala
Igual flauta de Orfeu
E eles perdem a cabeça).
De repente, mão no quadril
Já é outro beijo. E cruzeiro.
Sim, o cravo dilata a mão
E o olho direito do Diabo
Espreme a segunda lágrima:
Mefistófeles era agora Cristo.
Ou melhor, Cristófeles.

- Cristo é sempre outro Cristo
Em corpo de mesmo Cristo.
Quem é então o possuído:
Cristo por Isto ou Mefisto,
Ou Mefistófeles por Cristo?


Nesse instante, volta Fausta da
terra de Goethe. Vê o Pai na cruz
e perdoa. Afinal, ainda não
sabem o que fazem.


- Não há Fausta sem Mefisto
E vice-versa, versa-vice.
A posse: um tem ao outro.
Os dois, então, possuídos.
Poder nunca é ambíguo?
A teia não é para as duas,
Mosca e aranha, ambidestra?
Sempre alguém é de alguém
Numa posse possuída.
Pois não há um sem outro:
Sem mosca, não há aranha.
Sem homem, morre Deus.

- Em volta de cruz, urubus
E outras Ave-Marias em círculos:
Mendigos, cegos, céticos,
Sem-terra, outros sem-nada.
Cristófeles olha para cima:
Agora é ele próprio que não
Sabe o que faz. Para cima
Olha também a filha Fausta
No exato, átimo instante
Que a doce lágrima do Pai
Encontra seu fim e início:
O olho aberto de Fausta.
Que filtra água lava culpas:
Sim, ela perdoa Isto ou Cristo.
Mefistófeles ou Cristófeles.

- Como que Ele podia saber:
Possuir antes a mulher
E ser possuído pela filha?
E até secar a própria lágrima
Ali ficou Fausta ao pé da cruz
Para receber então outra tinta:
Gotas como rubis, telegramas.
Ou: sangue e mais sangue,
Que caía entre os seus seios,
Escorria, e pelo corpo ia dar
No delta daquele estuário,
Onde antes ela só guardava
(Sempre mal amado e cuspido)
O sangue branco dos homens.

- E até hoje, sangue de Cristo
Ou, então, de Isto ou Mefisto,
Fausta guarda ouro ou vinho.
Na sua taça interior, Graal.

Fim.
(c)2009, by Silvio Piresh
Todos os direitos reservados.
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